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FAES, o esquadrão que semeia o terror em bairros pobres da Venezuela

08/11/2019 08h42

Caracas, 8 Nov 2019 (AFP) - "Senhor, cuida do meu filho", suplicou Miriam, ao ouvir disparos à distância, mas a tragédia estava consumada: Luis, seu único filho, morreu nas mãos de um esquadrão policial que aterroriza as comunidades pobres da Venezuela.

Tiros no tórax abreviaram as vidas de Luis, Jesse, Cristian e outras dezenas, supostamente executados pelas Forças de Ações Especiais (FAES), criadas em 2017.

A situação é tal que a Alta Comissária de Direitos Humanos da ONU, Michelle Bachelet, exigiu sua "dissolução" após se reunir, em junho, com famílias das vítimas.

Desde 2018, a ONG de direitos humanos Cofavic, que assessora os familiares, recebeu a informação de 831 supostas execuções, a maioria de homens jovens, que implicariam as FAES.

Amanhecia no último 13 de maio, quando um agente matou Luis Ariza, de 21 anos, em Las Adjuntas, bairro pobre de Caracas.

Um boletim interno das FAES, ao qual a AFP teve acesso, diz que Luis caminhava com um revólver na mão e que, "fazendo ouvidos moucos" a uma ordem de parar, atirou contra uma guarnição policial, que o matou.

Mas parentes garantem que, desarmado, foi tirado à força da casa onde vivia com a esposa e os dois filhos, aos quais a Polícia manteve trancados. Ouviram disparos e quando tiveram permissão para sair, encontraram o corpo.

Os policiais o vincularam a um homicídio, mas o mesmo boletim indica que a Polícia não tinha registrada a arma, nem procurava por Luis.

"Estava descendo para ir trabalhar e quando escutei o tiro, senti algo no peito. O único que disse foi 'Senhor, cuida do meu filho'", lembra, entre longos silêncios, Miriam, uma bancária de 39 anos residente no bairro.

Luis tinha estado preso por três meses no âmbito dos protestos opositores que deixaram 125 mortos em 2017.

Bachelet documentou os casos de seis jovens "executados pelas FAES em represália" às manifestações no começo de 2019.

- "Vivam as FAES!" - O presidente socialista Nicolás Maduro ativou as FAES em 14 de julho de 2017, durante os protestos, para "proteger o povo do crime e de bandos de terroristas", que relacionou com a oposição.

Mas as denúncias de violações abundam: batidas ilegais em subúrbios pobres, execuções, simulação de confrontos, ocultamento de necropsias e entraves para acessar expedientes, segundo Bachelet, ONGs, vítimas e documentos a que a AFP teve acesso.

Bachelet teme que as FAES sejam um "instrumento para infundir medo na população e manter o controle social", disse em julho, perante o Conselho de Direitos Humanos da ONU, onde a Venezuela acaba de obter um polêmico assento.

"Como (o governo) sabe que perdeu popularidade nos bairros, para amedrontar manda esses assassinos", afirma Carmen Arroyo, cujo único filho, Cristian Charris, foi baleado em 24 de setembro de 2018.

Mas Maduro, apoiado pela Força Armada em meio à grave crise socioeconômica, não se abala. "Todo apoio para as FAES! Viva as FAES!", repetiu, após acusar Bachelet de "mentir".

A AFP pediu ao ministério do Interior - ao qual estão subordinadas as FAES - um comentário sobre as denúncias de Bachelet, sem obter resposta.

O governo reportou 17.849 mortes por "resistência à autoridade" entre 2016 e maio passado, envolvendo diferentes organismos. Para Bachelet, muitas "podem constituir execuções extrajudiciais".

Uma "reestruturação" das FAES avança, segundo fontes oficialistas que denunciam "repressão e abusos".

A Venezuela sofre uma epidemia de violência. Segundo o mais recente informe da ONU, registrou 57 homicídios por cem mil habitantes em 2017, nove vezes a taxa mundial.

- Medo - As operações das FAES - cujo chefe, Rafael Bastardo, foi sancionado pelos Estados Unidos - se caracterizam por sua "letalidade", assegura a ONG Provea.

Ignora-se quantos efetivos têm, embora Maduro tenha anunciado que em 2017 chegariam a 1.000.

De uniforme preto e com uma caveira bordada, encapuzados e com armas longas, ocupam bairros e retêm as pessoas em casa, além de exibir - segundo a Cofavic - pessoas baleadas como exemplo dissuasório.

À beira da sepultura, Ruth Pérez chora inconsolável a morte do sobrinho Johander, "executado" em 1º de novembro de 2019 em uma incursão de supostos agentes das FAES.

Foi enterrado ao lado do cunhado, Wuilkerman Ruiz, falecido na mesma operação em um prédio invadido na comunidade de Petare, em Caracas. Tinham 21 anos.

Moradores disseram à AFP ter visto Johander ajoelhado e com os olhos vendados. Depois, confinados em suas residências, ouviram tiros e ao sair, encontraram o cadáver.

Segundo estas versões, os policiais o acusaram de ladrão, lavaram a poça de sangue e moveram o corpo. Em outro lugar, Wuilkerman tombava em circunstâncias similares.

Ruth, de 35 anos, já perdeu outros dois familiares, segundo ela em ataques das FAES.

Seu irmão, Jesse, um pedreiro de 29 anos, morreu em 11 de julho de 2018 com um único tiro no tórax, segundo a certidão de óbito; Yondris, seu sobrinho de 18 anos, levou três tiros em 14 de agosto passado, conta Ruth, que atribui esta "fúria" a represálias por suas denúncias.

Ruth acreditou que mencionar a um agente seu encontro com Bachelet salvaria a vida de Yondris, contra quem, afirma, produziram juntamente com Johander uma acusação por posse de drogas tempos atrás.

"'Essa velha maldita que se meta nos seus assuntos (...) Vou matar toda a sua família e a última vai ser você'", lembra Ruth ter ouvido. Em vão, pediu proteção oficial.

Em meio a túmulos destruídos e um ambiente sórdido, os enlutados não puderam ver pela última vez Johander e Wuilkerman. Após quatro dias de trâmites e arrecadação para pagar os enterros, os corpos estavam decompostos em sacos pretos.

- Buscando justiça -A impunidade beira 98% dos casos, afirma Liliana Ortega, fundadora da Cofavic.

Mas a Procuradoria assegura que 353 agentes estão presos e 695, acusados de homicídio, tortura, prisões ilegais e violação de domicílio, com 109 condenações, em ações abertas desde 2017.

A AFP consultou o organismo sobre a existência de processados das FAES, mas não houve resposta. No entanto, em 28 de outubro, anunciou o ajuizamento de seis efetivos por um duplo homicídio em 6 de março.

No bairro La Lira, de Petare, Carmen Arroyo acessou o expediente de seu filho após um ano.

Barbeiro, 25 anos, e fã de basquete, Cristian morreu com um tiro no tórax quando voltava para casa após comemorar o aniversário. Deixou três filhos, que observam com naturalidade fotos dele no caixão com o rosto ferido.

Uma testemunha contou a Carmen ter pedido, com as mãos para o alto, que não o matassem.

As FAES o apresentaram como um criminoso, mas não tinha antecedentes, segundo um ofício da CICPC (polícia científica), também acusada de execuções.

A família denuncia que agentes puseram um revólver perto do corpo e que uma perícia não encontrou concordância entre a localização deste e da arma.

Tentando limpar seu nome, muitos assinaram uma ata em La Lira, onde crianças aproveitam um temporal repentino para tomar banho, pois a água canalizada é uma vaga lembrança.

Se "o policial que matou meu filho estivesse preso, teria um pouco de paz", diz Carmen, que aos 52 anos estudará advocacia buscando "justiça".

Parentes e amigos penduram semanalmente, no aramado da quadra de basquete, a camiseta que Cristian vestia para jogar. Seu rosto foi pintado em um mural. Para não ser esquecido.

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