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Indígenas brasileiros na Europa: 'Não podemos continuar lutando sozinhos'

12/11/2019 13h07

Paris, 12 Nov 2019 (AFP) - Uma delegação de líderes indígenas brasileiros lançou nesta terça-feira (12), em Paris, um apelo à Europa para que assuma sua responsabilidade e defenda a Amazônia e seus povos autóctones, "ameaçados" pelas políticas do presidente Jair Bolsonaro.

Desde meados de outubro, oito dirigentes da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) protagonizam a jornada "Sangue indígena: nenhuma gota a mais", que os levou a várias cidades no continente europeu. O grupo vem-se reunindo, sobretudo, com políticos e empresários.

Por um lado, o grupo espera atrair o maior apoio frente a Bolsonaro, a quem acusam de estimular a violência contra suas comunidades. Por outro, apontam a responsabilidade dos europeus - empresas e consumidores - na exploração da Amazônia, especialmente com futura assinatura do acordo de livre-comércio UE-Mercosul.

"O discurso de ódio e de violência de Bolsonaro está estimulando a sociedade a cometer atos" contra os indígenas, denunciou Sonia Guajajara, coordenadora-executiva da APIB, que representa 305 etnias.

Desde antes de assumir o governo em 1º de janeiro deste ano, Bolsonaro afirmou que não permitiria o reconhecimento de novos territórios indígenas e defendeu a exploração de recursos naturais em suas reservas.

Segundo a APIB, 136 líderes de defesa dos direitos humanos e ativistas - incluindo indígenas - foram assassinados desde o final de 2018 no Brasil. Desde janeiro deste ano, registraram-se 109 invasões de territórios autóctones, além do aumento de incêndios de origem criminosa.

"Não podemos continuar lutando sozinhos", desabafou Guajajara, lembrando que os indígenas têm, tradicionalmente, o papel de "guardiães" da Amazônia, um imenso território natural, vital na luta contra a mudança climática.

- Aumento da violência -A violência "certamente vai disparar" com o acordo de livre-comércio UE-Mercosul, advertiu Angela Kaxuyana, que integra a Articulação.

Além de produtos como soja e carne bovina, cujo comércio com a UE está previsto neste tratado, "os metais, como o ouro, nos preocupam, especialmente", porque sua exploração "aumentará a invasão das nossas terras", afirmou Kaxuyana.

A assinatura final deste acordo está prevista para o final de 2020, embora alguns países como França e Irlanda tenham deixado claras as suas reservas, diante da política ambiental do governo Bolsonaro.

Kreta Kaygang, líder indígena da APIB, criticou a França, por se tratar de um "grande exportador" de armamento para o Brasil, e Bolsonaro, por querer flexibilizar a posse e o porte de armas. Algo que, segundo ela, agravaria o "massacre" dos indígenas.

Até agora, entre outras cidades, a delegação passou por Roma, Berlim e Bruxelas e deve concluir sua viagem na Espanha.

Conforme o líder Dinaman Tuxá, com UE e Noruega, estabeleceu-se um "canal de diálogo institucional para transmitir informações e pedir que aja contra o malefício do agronegócio".

Itália, Alemanha e Noruega também se comprometeram a "aplicar leis para proibir a entrada, em seu território, de produtos originários destas zonas de conflito e a criar mecanismos de punição", completou Tuxá.

app/mb/tt

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