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Famintos e cansados, manifestantes resistem ao cerco à universidade de Hong Kong

Manifestantes tentam sair do campus da Universidade Politécnica em Hong Kong - Anthony Wallace/AFP
Manifestantes tentam sair do campus da Universidade Politécnica em Hong Kong Imagem: Anthony Wallace/AFP

Hong Kong

21/11/2019 14h19

São sombras que vagam silenciosamente e em pequenos grupos pelos corredores desertos e cheios de lixo e escombros da Universidade Politécnica de Hong Kong, onde há cinco dias um número indeterminado de manifestantes pró-democracia permanece entrincheirado diante do cerco da polícia.

Todos os edifícios mostram sinais da batalha do fim de semana, a mais violenta desde o início dos protestos em junho.

Os manifestantes que controlam essa "fortaleza" de tijolos, cujas torres dominam a península de Kowloon, são quase invisíveis.

"A polícia diz que somos aproximadamente 100. Não queremos dar números, mas somos muito mais", afirma um manifestante mascarado que se apresenta como "Mike". É impossível saber se ele exagera, ou não.

Ao mesmo tempo, sabe-se que centenas de manifestantes fugiram da universidade nos últimos dias, e a maioria foi presa.

"Estamos escondidos. Acabei de vir buscar comida e vou me esconder novamente", acrescenta Mike.

Jornalistas parecem ser mais numerosos do que os manifestantes nessas salas da universidade. Os entrincheirados circulam em pequenos grupos de três, quatro, ou no máximo cinco pessoas. O objetivo é distribuir "as forças", em caso de agressão policial.

O vazio reinante e o silêncio do campus são quase irreais nesta grande cidade de quase 7,5 milhões de habitantes.

Hoje, a universidade parece ter sido retirada de um filme de ficção científica, e as pessoas no campus, os únicos sobreviventes de um desastre global.

A uma curta distância, para além dos restos das barricadas, há vários policiais.

"A batalha de sábado e domingo foi a mais terrível da história de Hong Kong", afirma "Mike".

Esse "valente", como são chamados os manifestantes que estão na linha de frente, conta que tinha um arco e flecha nas mãos durante o protesto, enquanto "a polícia ameaçava disparar munições reais".

"Eu sabia que havia atiradores na frente", afirma o manifestante, que diz estar "na casa dos 30" e trabalhar "em pesquisa e desenvolvimento". Seu maior medo é ser identificado.

Dentro dos prédios do campus um odor desagradável se expande, cozinhas e máquinas distribuidoras de alimentos e bebidas foram saqueadas, e restos de comida no chão atraeam enormes baratas.

Os freezers do campus ainda têm comida, e os manifestantes querem continuar resistindo.

"A polícia está enganada, se acha que vamos desistir", anuncia "Mike".

"Temos água e comida. Podemos ficar aqui por um mês", acrescenta.

Em uma sala onde existem tapetes de ioga que os jovens usam para descansar, três manifestantes se encontram cara a cara com jornalistas e cobrem o rosto rapidamente.

"Não, não estamos cansados", diz "Stephen", que tem cerca de 20 anos.

Sua roupa preta, os mosquetões que usa amarrados na cintura e as proteções de ciclistas nos joelhos fazem-no parecer o Robocop.

Alguns jovens pensam em que a universidade deserta parece um videogame. Atrás de cada porta, pode haver uma surpresa.

"Sim. Passamos toda a tarde de ontem jogando Playstation 4", brinca "Stephen".

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