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Potências tentam salvar acordo nuclear com o Irã

06/12/2019 18h28

Viena, 6 dez 2019 (AFP) - Os países que assinaram o acordo nuclear do Irã continuam comprometidos com o pacto, que se encontra agonizante, informaram nesta sexta-feira (6) representantes da China e da Rússia após negociações tensas em Viena, enquanto o governo iraniano continua se esquivando das regras que definem suas atividades nucleares.

Representantes de Alemanha, Reino Unido, França, China e Rússia participaram da reunião na sede da União Europeia, no primeiro encontro entre esses países desde julho.

Em maio passado, o Irã adotou uma série de medidas que violam o acordo de 2015 que incluem aumento do enriquecimento de urânio e insiste em que, segundo o pacto, tem o direito de tomar essas medidas em retaliação à decisão dos Estados Unidos de deixar o acordo em 2018 e a reimposição de sanções econômicas.

Atualmente, as sanções econômicas estabelecidas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sufocam a economia iraniana e, em resposta, Teerã tenta quebrar as regras que definem suas atividades nucleares.

Como resultado, tensão tem aumentado com os países europeus, que ainda acreditam no tratado nuclear assinado há quatro anos.

Neste contexto, a diplomacia europeia mencionou pela primeira vez a possibilidade de ativar o "mecanismo de resolução de disputas" incluído no acordo de 2015 que poderia significar a restauração das sanções da ONU.

Atualmente, o Irã está excedendo o volume de urânio enriquecido, a taxa de enriquecimento e a quantidade de água pesada autorizada pela comunidade internacional e também moderniza suas centrífugas. Tudo isso aumenta a pressão dos países que ainda permanecem no acordo.

Na quinta-feira, Reino Unido, França e Alemanha acusaram o Irã de desenvolver mísseis balísticos com capacidade nuclear em uma carta enviada ao secretário-geral da ONU, António Guterres.

O ministro do Exterior do Irã, Mohamad Javad Zarif, utilizou o Twitter para reagir à acusação, indicando que a carta era "uma mentira desesperada para esconder sua miserável incompetência em cumprir o mínimo estrito de suas próprias obrigações".

Nesta sexta-feira, o chefe da delegação chinesa Cong Fu disse à imprensa após a reunião que todas as partes ainda estavam comprometidas com o pacto e que o mecanismo de resolução de disputas (ao qual a China é contra) não havia sido mencionado.

"Todos os países precisam evitar ações que possam complicar ainda mais a situação", afirmou.

"Levar esse assunto ao Conselho de Segurança (da ONU) não interessa a ninguém, exceto talvez aos Estados Unidos", afirmou.

Outros enviados não fizeram declarações ao deixar a sala de reuniões.

Já o representante da Rússia, embaixador Mikhail Ulyanov, escreveu no Twitter que os participantes da reunião permaneceram "totalmente unidos e comprometidos em seu apoio e compromisso" ao acordo, apesar de "todas as dificuldades e diferenças".

- Ciclo de escalada -Segundo alguns analistas, se as sanções da ONU forem impostas novamente e o acordo entrar em colapso, o Irã também poderá se retirar do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP).

"Os dois lados estão imersos em um ciclo de escalada e é difícil imaginar como isso vai acabar", disse Ali Vaez, do International Crisis Group Institute.

"O acúmulo de infrações (pelo Irã) corre o risco de causar uma ruptura", declarou François Nicoullaud, ex-embaixador da França no Irã.

Além disso, e de acordo com um diplomata europeu, a decisão de ativar o mecanismo de resolução de conflitos previsto no acordo é muito delicado e pode significar "a perda de todo o controle" sobre a situação e o programa iraniano.

Por sua vez, o Irã ameaça "reconsiderar seriamente" seus compromissos com a Organização Internacional de Energia Atômica (OIEA), se esse mecanismo for ativado. A presença no país de inspetores da organização responsável pelo controle das atividades nucleares é um dos principais pontos do acordo de 2015.

Os esforços europeus para proteger o Irã dos efeitos das sanções dos americanos, criando um mecanismo para manter o comércio legítimo com a República Islâmica, deram poucos frutos, para grande frustração de Teerã, e a União Europeia está cada vez mais preocupada com a possibilidade do Irã não manter seus compromissos.

O diálogo com as autoridades iranianas também é dificultado por vários pontos de discórdia: os mortos e detidos na repressão às manifestações no Irã em meados de novembro, os navios de petróleo confiscados por Teerã ou os investigadores franceses presos no Irã.

O presidente iraniano, Hassan Rohani, disse na quarta-feira que seu país não está disposto a conversar com os Estados Unidos até que suspenda suas sanções contra a República Islâmica.

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