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O prefeito, o coronavírus e o dia a dia na Itália

27/02/2020 10h30

Borgonovo Val Tidone, Itália, 27 Fev 2020 (AFP) - "Tinha que acontecer com alguém", afirma, resignado, Pietro Mazzocchi, de 59 anos e prefeito de Borgonovo, cidade de 8.000 habitantes do norte da Itália, que contraiu o novo coronavírus.

Confinado em sua casa, mas "não particularmente preocupado", ele conversou por telefone com a AFP.

Tudo parece tranquilo em Borgonovo Val Tidone, localidade da Emilia Romagna, região contígua à "zona vermelha" em quarentena da vizinha Lombardia. A prefeitura estava praticamente vazia nesta quinta-feira.

"Sabemos sobre o prefeito, mas não é por este motivo. De todas as formas, os escritórios estão fechados", afirma um segurança.

Desde o resultado positivo no exame para o coronavírus, Mazzocchi se confinou em casa.

"Estou tranquilo. É como uma gripe. Acordei com febre no domingo, fraqueza nas pernas e um pouco de tosse. Depois, meu filho teve tosse. Então, por precaução, avisei os médicos", disse.

"Você sabe que pode acontecer a qualquer momento", afirma o prefeito, que mora com a esposa, mas agora em andares diferentes da casa.

"Estou com febre, apenas", relativiza.

Mas ele não esconde a preocupação por não saber como foi infectado. "Isto é o pior. Não fui à zona vermelha, fiquei na minha província. Realmente não tenho ideia".

Desde domingo, mais de 50.000 pessoas estão confinadas em 10 cidades da Lombardia e em uma localidade de Veneto, uma medida drástica adotada para frear o avanço do coronavírus, que infectou mais de 400 pessoas na Itália, a maioria no norte, o país europeu mais afetado pela epidemia. Doze pessoas morreram até o momento.

- Prefeitos na linha de frente -"Tenho que tentar lembrar de todas as pessoas com quem tive contato nos últimos dias. É indispensável e complicado. Eu encontrei centenas", admite Mazzocchi. Somente na prefeitura, que ele frequentava diariamente, trabalham 30 pessoas, que serão submetidas a exames.

"Há um pouco de preocupação e ansiedade na cidade. As notícias circulam. Espero que eu seja o único infectado", completa.

Como todos os seus colegas do norte da Itália, Mazzocchi teve que administrar nos últimos dias as angústias dos moradores, tranquilizando os moradores e cumprindo as ordens do governo central para fechar escolas e igrejas. Paradoxalmente foi o primeiro prefeito infectado.

"Os prefeitos estão na linha de frente. Absorvem tudo, para o bem e para o mal. Temos que tentar tranquilizar, manter a calma, mas a população está alarmada. Muitos pedem para fazer exames para saber se têm o coronavírus. Temos que manter a calma. Eu que estou infectado, eu que teria que dar socos na parede", afirma em tom sarcástico.

"Vivemos um momento estranho. Da minha parte, acredito que há um pouco de exagero, se compararmos os danos provocados pela gripe com o coronavírus. Mas todo o sistema foi abalado, com as escolas fechadas, a economia da região. Muitas empresas estão na zona vermelha e as pessoas não podem trabalhar", lamenta.

Para evitar o pânico, um lema foi repetido diversas vezes na região nos últimos dias: "Temos que seguir adiante".

cf/glr/lch/af/zm/fp

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