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Precariedade e coronavírus, castigo duplo para trabalhadores imigrantes no Golfo

30/03/2020 08h41

Doha, 30 Mar 2020 (AFP) - Milhões de trabalhadores imigrantes, que já sofrem de precariedade, temem por sua saúde e empregos diante das medidas tomadas nos países do Golfo para impedir a propagação da pandemia de coronavírus.

Mais de 3.400 casos e 16 mortes devido à epidemia foram declarados nas monarquias árabes do Golfo, retardando a atividade econômica desses países, que empregam grandes quantidades de mão de obra estrangeira.

"Estamos trancados há oito ou dez dias. Não sabemos quando isso vai acabar", disse à AFP um engenheiro paquistanês no Catar, que está em quarentena.

"O problema fundamental é manter o acesso aos alimentos", explica o homem de 27 anos, que diz receber comida do governo, mas "em pequena quantidade".

Como ele, dezenas de milhares de estrangeiros estão confinados na zona industrial de Doha, depois que alguns deles contraíram a COVID-19.

- "Medo" -As forças de segurança cercaram a área, além de equipes médicas, uma medida essencial para salvar vidas, segundo as autoridades.

Mas as casas são escassas, e os trabalhadores estão amontoados em más condições sanitárias, o que os coloca em risco, segundo organizações de direitos humanos.

Para a Anistia Internacional, esses trabalhadores estão particularmente expostos a um risco de contaminação nos "acampamentos" onde estão "presos" e onde o distanciamento social parece ilusório.

Segundo o escritório em Doha da Organização Internacional do Trabalho (OIT), alguns empregadores transferiram seus funcionários para residências mais espaçosas para evitar a lotação.

É o caso de um funcionário de supermercado do Sri Lanka que compartilha com outros estrangeiros uma casa que foi desinfetada.

"Eles nos forçam a usar máscaras e luvas", disse o jovem de 23 anos à AFP.

Um fornecedor turco afirma ter-se confinado como precaução. "Tenho medo de me contaminar", afirma o homem de 49 anos.

Como vários outros trabalhadores imigrantes, ele não tem seguro de saúde.

E como as atividades não essenciais foram interrompidas, muitos não recebem seus salários e temem ser demitidos e até expulsos, o que seria uma catástrofe para as famílias que dependem de sua renda.

Além das casas "lotadas e muitas vezes insalubres", essas pessoas sofrem com "uma lei trabalhista que concede aos empregadores poderes excessivos e incentiva o abuso e a exploração", diz Hiba Zayadin, pesquisadora da Human Rights Watch (HRW).

- "Impacto desastroso" -Na Arábia Saudita, onde vivem 10 milhões de trabalhadores estrangeiros, alguns se queixam de que seus chefes os estimulam a trabalhar sem serem pagos pelas férias, enquanto os trabalhadores sauditas têm esse direito.

"Vários trabalhadores do setor privado sofrem com o fechamento da maioria das atividades econômicas. Os patrões os forçam a ficarem em casas, sem serem pagos", disse à AFP um diplomata radicado em Riade.

No Kuwait, que tem 2,8 milhões de trabalhadores migrantes, a egípcia Um Sabrin não receberá pagamento do agora fechado salão de beleza onde trabalha. Ela está disposta a levar seu chefe à Justiça, mas muitos outros hesitam em fazê-lo por medo de retaliação.

O Catar, que sediará a Copa do Mundo em 2022 e realiza grandes obras públicas, é vigiado com atenção por organizações internacionais e por ONGs.

Vários trabalhadores imigrantes - que representam mais de três quartos da população - estão empregados em projetos relacionados a este evento, como a construção de estádios, ainda em andamento, apesar do fato de a maioria das atividades não essenciais ter sido interrompida.

A OIT teme que os salários não sejam pagos e que demissões possam ocorrer em um contexto de fragilidade para as economias do Golfo, atingidas pelo colapso dos preços do petróleo.

Para o diretor da OIT no Catar, Houtan Homayounpour, as demissões em massa, evitadas até o momento, teriam um "impacto desastroso".

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