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Angústia por superexposição à COVID-19: a rotina dos funcionários de supermercados

02/04/2020 10h32

Roma, 2 Abr 2020 (AFP) - Os clientes empurram seus carrinhos, tocam nos alimentos e até umedecem os dedos para contar as cédulas: qualquer um pode ser portador e transmissor do novo coronavírus, uma angústia a mais para os funcionários dos supermercados.

Na Itália, país mais afetado pela COVID-19, os empregados de supermercados e demais estabelecimentos comerciais vivem com o temor do contágio, sentindo-se exaustos, desprotegidos e superexpostos ao vírus.

"Temos medo de levar algo para casa", disse à AFP Piera, uma caixa de 31 anos, que pediu para não ser identificada.

Há dez anos, esta funcionária trabalha em um supermercado em Novara, cidade 50 quilômetros ao oeste de Milão, onde, na semana passada, um policial de 33 anos morreu por causa do vírus. Hoje, ela trabalha meio período.

Em Brescia, 90 quilômetros ao leste de Milão, na região da Lombardia, principal foco da COVID-19 na Itália, morreu uma caixa de 48 anos.

Essas mortes põem em xeque a eficácia das medidas adotadas para proteger os empregados.

Os sindicatos acreditam que outros trabalhadores possam ter morrido pelo vírus sem que sequer se saiba que esta pode ter sido a causa.

Imobilizados atrás de seus caixas durante horas, ou reabastecendo as gôndolas em meio aos clientes, estes funcionários estão na linha de frente, muito expostos ao risco de contágio.

Piera (nome fictício) recebeu gel desinfectante, luvas e uma máscara, os quais deve lavar e reutilizar. Na semana passada, a gerência também instalou painéis de plexiglass frente a cada caixa.

Os funcionários também reclamam, com frequência, que os clientes continuam fazendo compras todos os dias, aumentando o risco de propagação do vírus.

"Compram coisas que eu não compraria em uma situação de crise", surpreende-se Chiara, caixa no centro de Roma.

Coisas como "sushi, Nutella, cerveja", completa.

- Respeito -O que mais surpreende Chiara é o comportamento irresponsável de algumas pessoas em relação ao vírus. Segundo ela, alguns vão com a família, outros ficam muito perto dos funcionários, sem falar naqueles que umedecem os dados para contar as cédulas.

Apenas na Itália, já são mais de 100.000 infectados e 12.000 mortos.

Os sindicatos pediram ao governo que diminua o horário de funcionamento do comércio para reduzir a exposição dos empregados, mas o primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, prometeu em 21 de março que as lojas permanecerão abertas.

As autoridades das duas regiões mais afetadas - Lombardia e Piamonte (no noroeste do país - recomendam que se verifique a temperatura dos clientes na entrada das lojas com escâneres térmicos, mas apenas alguns poucos estabelecimentos adotaram a prática.

Assim como muitos, Chiara vive com a ansiedade de tocar em algo, ou em alguém contaminado: "Você começa a pensar 'ai, meu Deus, acabei de colocar a mão no rosto'. Ficamos um pouco paranoicos".

Piera admite que precisa de "coragem" para ir trabalhar todos os dias.

"Algumas pessoas dizem que somos heróis. Não acho. Estamos apenas fazendo nosso trabalho. Não quero ser uma heroína, mas ser respeitada", concluiu.

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