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Dor, solidão, medo: as histórias dos sobreviventes da COVID-19

07/04/2020 06h47

Paris, 7 Abr 2020 (AFP) - A morte à espreita no hospital, o medo de morrer só, desespero e desorientação em casa, solidão, raiva e o desejo de compartilhar ou mudar de vida: 12 pessoas de várias partes do mundo, sobreviventes da COVID-19, compartilham histórias comoventes e angustiantes da dor e do medo que sentiram após se contagiarem com o vírus:

- 'Montanha-russa' dolorosa - Sem ter condições de saúde pré-existentes, o professor de engenharia sul-coreano Park Hyun, de 47 anos, disse que a princípio pensou que o coronavírus não fosse o que ele tinha, até desenvolver sintomas que acabaram levando-o a precisar de cuidados intensivos na cidade de Busan, sul do país.

Começou com tosse seca e dor de garganta, contou, seguidas dias depois de uma falta de ar tão severa que ele desmaiou enquanto aguardava o teste do coronavírus no hospital.

O resultado deu positivo e ele deu entrada no hospital, onde sua condição flutuou absurdamente todos os dias. Várias vezes, pensou que fosse morrer.

"Foi como uma montanha-russa", contou. "Senti como se uma placa grossa pressionasse meu peito e também agulhas perfurando-o".

Alguns dos seus sintomas podem ter sido efeitos colaterais do tratamento, acredita.

Mas oito dias depois, com dois testes negativos, ele recebeu alta.

"Fiquei muito mal", disse Park. Sempre que melhorava um pouco, "pensava que aquela podia ser a última vez em que poderia escrever alguma coisa na vida", acrescentou.

"Então, tentei escrever alguma coisa curta no Facebook para compartilhar com amigos".

- 'Morte ronda' o hospital -O cardiologista Fabio Biferali passou oito dias "isolado do mundo" no hospital Policlínico Umberto I, em Roma, em uma ala de ortodontia, adaptada para abrigar uma unidade de cuidados intensivos.

Descrevendo a dor que sentiu como "estranha", o médico de 65 anos disse que era como se tivesse um macaco pequeno nas costas, sensação descrita também por seus pacientes.

A oxigenoterapia foi dolorosa e encontrar a artéria radial era difícil, contou. "Eles faziam isso até duas vezes por dia. Ser médico me ajudou a suportar a dor. Outros pacientes gritavam, desesperados, 'Chega!', 'Chega!'".

A parte mais difícil, conta, foram as noites, quando ficava sozinho com seus medos.

"Não conseguia dormir, a ansiedade invadia o quarto... Vieram os pesadelos, a morte rondava", relatou.

"Senti medo de morrer sem conseguir segurar a mão dos meus familiares e amigos. Fui tomado pelo desespero".

Com os médicos cobertos da cabeça aos pés por trajes especiais de proteção, Biferali disse ter encontrado conforto ao conseguir enxergar olhos "afetuosos" por trás das máscaras de vidro e por ouvir suas vozes.

"Muitos eram jovens, médicos na linha de frente. Foi um momento de esperança".

- Ir até 'porta do inferno e voltar' - Wan Chunhui, 44 anos, contou ter se sentido "aterrorizado" no começo, mas que ter ido até "a porta do inferno" e voltar, sobrevivendo ao vírus, transformou a forma como ele encara a vida.

"Acho que o maior desafio para mim é que a minha forma de ver as coisas é diferente agora", disse Wan, que passou 17 dias no hospital de campanha Huoshenshan, na cidade chinesa de Wuhan, província de Hubei (centro), onde a epidemia emergiu.

"Eu me sinto realmente calmo sobre tudo, realmente calmo... Fui até a porta do inferno e voltei. Eu vi com meus próprios olhos outros que não conseguiram se recuperar e morreram. Isso teve grande impacto sobre mim".

A princípio, ele se isolou para proteger a família, após medir a temperatura mas, ainda febril alguns dias depois, caminhou até o hospital.

Não havia testes disponíveis, mas ele recebeu a prescrição de antibióticos e medicação para gripe. Pediram que fizesse quarentena em casa, devido à falta de leitos no hospital.

"Fiquei apavorado a princípio", contou. "Mas quando voltei para casa, mudei para uma postura mais positiva e me preparei para enfrentar a situação. De qualquer jeito, não adiantava entrar em pânico", contou Wan à AFP.

Este investidor de 44 anos, casado e pai de uma menina de nove anos, é hipertenso.

Em casa, uma tosse severa o acometeu e ele acabou sendo hospitalizado.

A terapia hormonal ajudou a reduzir sua temperatura, embora continuasse com falta de ar, mas os suprimentos médicos eram escassos, disse Wan, e o pessoal sanitário usava trajes de proteção precários, improvisando com sacos plásticos para cobrir os sapatos.

Wan foi transferido para um dos dois hospitais de campanha para pacientes com COVID-19 em Wuhan, um centro bem equipado, conta, onde foi tratado majoritariamente com remédios ocidentais.

- Mantendo a fé -Song Myung-hee, de 72 anos, sentiu medo de morrer sozinha após ter se contagiado durante um culto na Igreja Shincheonji de Jesus, na cidade de Daegu (sul da Coreia do Sul), um grupo religioso secreto no centro da pandemia do novo coronavírus.

Ela esteve no mesmo evento da mulher conhecida como Paciente 31, uma senhora de 61 anos, que participou de quatro cultos antes de ser diagnosticada com a COVID-19.

Song ficou em quarentena em casa preventivamente, mas permaneceu assintomática por vários dias, antes de o vírus atacá-la repentinamente com uma forte tosse.

"Eu não conseguia dormir", contou à AFP. "Durou dois dias. Tive que manter um saco plástico todo o tempo porque não parava de expedir catarro".

"Então, meu rosto começou a inchar. Fiquei apavorada de morrer sozinha", acrescentou.

Com muita demanda, nenhum leito hospitalar estava disponível na época em Daegu, então ela foi levada para Seongnam, a 220 km de distância.

"Me senti aliviada quando entrei no quarto do hospital porque pelo menos lá eu sabia que não morreria sozinha", afirmou.

O líder da Igreja Shincheonji se desculpou por seu papel na disseminação da doença, mas apesar dos apelos da família, Song está decidida a continuar frequentando os cultos.

"Eu nunca vou abandonar a minha igreja, não importa o que os outros digam".

- Em ondas - "A melhor forma de descrever é esta: quando você está em altitude elevada tem dificuldade para respirar", conta a sul-africana Christine, de 28 anos, que sofre de siringomielia, um distúrbio que afeta a medula espinhal.

A analista conta ter sentido os primeiros sintomas dois dias depois de ter tido contato com uma colega de trabalho doente. O contágio por COVID-19 foi confirmado.

Seu companheiro, o advogado Dawie, de 30 anos, não pôde fazer o exame porque "o sistema ficou sob muita pressão", mas alguns dias depois, ele apresentou os mesmos sintomas.

Em auto-isolamento, o casal, que pediu para não ter seus sobrenomes publicados, continuam trabalhando de casa.

Às vezes, se questionam se não estão exagerando porque em alguns dias se sentem bem, conta Dawie.

"Em questão de dias, a situação flutua. A gente sente calafrios, depois se sente melhor... O pior para mim foi semana passada... Eu realmente fiquei com falta de ar... Liguei para a minha médica. Ela me disse para observar indícios de que não estava recebendo oxigênio suficiente".

"Você deve olhar para as suas unhas, se elas estão ficando azuis", contou ele.

- Desespero em casa - Para a dona de casa francesa Djemila Kerrouche, mãe de três filhos, a pior parte foi o desafio que seus três filhos enfrentaram de prosseguir com as tarefas escolares confinados em casa.

Depois de desenvolver os sintomas, ela passou a usar luvas e máscara em casa e não tocava nos alimentos, mas dois de seus filhos - com idades de 6, 11 e 19 anos - já estavam tossindo.

"Meus filhos ficaram sob grande pressão, eles queriam se sair bem na escola", conta Djemila, de 47 anos, que mora em Mulhouse, leste da França, região duramente afetada pela pandemia.

"Os professores lhes deram tarefas como se a situação estivesse normal", contou ela.

"A mais velha está se preparando para o bac (o equivalente ao Enem no Brasil) e eu a vi chorar quando não conseguia dar conta e eu não podia abraçá-la e consolá-la, ajudá-la".

"Estou arrasada. Não consigo parar de chorar..."

- Choque e solidão - Marisol San Roman, socióloga e estudante argentina, disse ter ficado chocada ao descobrir que tinha o vírus e descreveu a sensação de "solidão absoluta" de estar infectada.

Ela acredita ter se contagiado com a COVID-19 em um jantar de despedida, em Madri, após o encerramento das aulas na escola de negócios Instituto de Empresa, onde estudava, antes de voltar para a Argentina.

"Tenho 25 anos, sou jovem, tenho boa saúde. É louco", afirmou, expressando seu choque.

Seu pai, de 65 anos, com quem mora, evita ter contato com ela e deixa sua comida na porta do seu quarto.

Sozinha, tratou uma infecção pulmonar e mediu a saturação de oxigênio em seu sangue. "O coronavírus é uma doença que se vive na solidão, em completa solidão", resumiu.

Seu caso viralizou quando passou a dar entrevistas à imprensa por Skype e disse ter sofrido vários insultos pelas redes sociais por ter voltado ao seu país portando o vírus.

Ela vem tentando deter a estigmatização associada com quem tem a doença, afirmou.

Em sua conta no Instagram, ela escreve sobre querer ser uma espécie de consciência social, advertindo as pessoas para estarem alertas, que "isto não é uma brincadeira, ser jovem não te imuniza contra nada e que o coronavírus não é uma gripe".

- Compartilhando a experiência com os outros - As empreendedoras Julia, de 27 anos, e Megan, de 35, queriam compartilhar o que estavam vivendo para ajudar outros após se tornarem os 50 primeiros casos registrados na África do Sul.

Elas pegaram o vírus, assim como outros três familiares, em uma viagem para esquiar na Suíça, provavelmente em um bar.

As duas mulheres, que pediram para não ter seu nome completo revelado, mantêm a conta @livingcoronapositive no Instagram, que usam para documentar sua recuperação, responder a perguntas e querem "criar alguma luz e positividade a este momento sombrio".

Elas experimentaram diferentes tipos de sintomas: alguns moderados, outros que se estenderam por uma semana.

Sobre os exames, comentam: "ter um cotonete gigante enfiado no seu nariz não é agradável, mas é rápido".

E seu conselho, diz Megan, é lembrar que "estresse, ansiedade e pânico são reações humanas normais para algo tão maciço e desconhecido como esta pandemia! Então, por favor, sejam gentis com seus entes queridos que sentem que estão perdendo o controle. Eles precisam do seu amor e apoio".

- Raiva - O francês Charlie Barres, de 29 anos, trabalha em hospitais como educador físico e se preocupa com a pressão adicional que a pandemia põe no sistema de saúde.

"Alertas sobre o estado do sistema não são de ontem. Não faz muito tempo, cuidadores estavam em greve... E agora, está explodindo. Ao mesmo tempo, vivemos um desastre nos hospitais", afirmou.

Casado e pai de um menino de dois anos, ele ficou confinado em sua casa, em Paris, depois que a doença começou a se manifestar com calafrios e dor de garganta.

Um médico o diagnosticou. "Os exames são caros e eles os reservam para os casos complexos", afirmou.

Depois de dois dias sentindo-se mal, começou a melhorar gradativamente. Seu filho também ficou doente e sua esposa teve dores de cabeça e irritação na garganta, contou.

- Paciente zero - A tia de Lorena, de 33 anos, foi a "paciente zero" no Equador. Ela voltou das férias na Espanha e participou de uma festa de boas-vindas da família, que reuniu cerca de 30 pessoas no fim de fevereiro na cidade de Babahoyo (sudoeste).

"Já ao chegar ela não estava bem... Ela nos disse que se sentiu febril durante a viagem e que muitas pessoas tossiam" no avião, contou Lorena, que é professora.

Sua tia, de 71 anos, foi hospitalizada em Guayaquil, o epicentro da pandemia no Equador, e o contágio pelo novo coronavírus foi confirmado uma semana depois.

Quando a família, que foi isolada e testada, viu a agora ex-ministra da Saúde Catalina Andramuno anunciar cinco casos de coronavírus em uma coletiva de imprensa na TV, perceberam: "Éramos nós!', disse Lorena.

Sua tia acabou morrendo e dezenas de familiares foram infectados, inclusive Lorena, que agora está recuperada.

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