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Coronavírus, o problema que faltava para a onda de calor na Índia

28/05/2020 08h26

Nova Délhi, 28 Mai 2020 (AFP) - Quando falta água, a lavagem de mãos recomendada contra a epidemia de coronavírus é impensável para centenas de milhões de indianos pobres como Bala Devi, sufocada por uma onda de calor que este ano acontece em plena pandemia.

"Faz tanto calor que as crianças não param de pedir água para beber. Como vamos dar água para que lavem as mãos, se não temos o suficiente para beber?", declara à AFP esta mãe de um bairro pobre de Nova Délhi.

Esta semana, a onda de calor afeta o norte da Índia. Na terça-feira, a temperatura atingiu 47,6 graus na capital, o maior nível registrado em 18 anos para o mês de maio.

Neste período do ano, o abastecimento de água corrente pode ser errático, especialmente nas favelas onde vivem quase 100 milhões de indianos. Muitos precisam entrar em filas para encher baldes em carros-pipa providenciados pelas autoridades.

"Cada gole de água é um luxo para nós. Não podemos desperdiçar tomando banho, ou lavando as mãos", explica Bala Devi, cobrindo o nariz para evitar o cheiro das redes de esgotos entupidas.

A família de oito membros de Bala Devi vive trancada em sua modesta casa de apenas um quarto, devido ao confinamento em vigor desde o fim de março para lutar contra a propagação do coronavírus na Índia. A residência tem apenas um pequeno ventilador de teto para fazer circular um pouco o ar.

A casa tem água corrente, mas, nos últimos dias, o abastecimento foi cortado. E uma bomba elétrica para extrair água do lençol freático praticamente não consegue resultado.

"Se não podemos nos lavar e há sujeira por todos os lados, está claro que o vírus vai nos atacar", afirma, preocupada, Anita Bish, uma vizinha com um bebê no colo.

Quase um terço do 1,3 bilhão de indianos precisa racionar água durante o verão. As torneiras secam, os níveis dos reservatórios registram queda, e o nervosismo provoca brigas nas filas de espera para a distribuição do "ouro líquido".

O confinamento agravou a situação das famílias mais pobres, obrigadas a ficarem em casa, com pouca água para refrescar as pessoas e recursos escassos. Apenas 7% das residências indianas têm ar-condicionado.

A Índia deve registrar ondas de calor extremo com mais frequência, devido ao aquecimento global e ao aumento das "atividades geradoras de calor", como a indústria, ou o setor da construção, afirma Tarun Gopalakrishnan, do Centro para a Ciência e o Meio Ambiente.

Apesar dos programas para melhorar o acesso à água corrente, quase 163 milhões de indianos não têm água potável perto de suas residências, de acordo com um relatório de 2018 da ONG WaterAid.

O custo econômico é considerável, já que milhões de indianos perdem dias de trabalho a cada ano no país, devido a doenças transmitidas pela água.

O governo do primeiro-ministro Narendra Modi transformou o acesso à água potável em uma de suas prioridades e prometeu resolver o problema para 145 milhões de residências rurais até 2024.

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