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A vida no limite da família de funerários por causa da pandemia no México

08/06/2020 14h32

México, 8 Jun 2020 (AFP) - Ignacio e Mauricio costumavam "brincar" de encenar um velório: um interpretava o morto e o outro ficava responsável por colocá-lo em um dos caixões da funerária fundada por sua avó na Cidade do México. A relação deles com a morte sempre foi harmoniosa, até a pandemia.

"Nos ensinaram que o sangue e a morte não são coisas ruins. Nos levavam para a escola em carros fúnebres", lembra Ignacio Navarrete, no escritório da Los Olivos Funerales, de costas a fotografias que resumem quatro décadas de história do negócio, que hoje é dele, dos seus irmãos e da avó, mas já pertenceu aos seus bisavós.

O trabalho nesta empresa familiar, dirigida por Bertha Olivos, 82 anos, aumentou quatro vezes desde o final de fevereiro, quando o primeiro caso da COVID-19 foi registrado no México, explica Nacho, que hoje administra a funerária, além de carregar e transportar os corpos junto ao irmão, e o tio Ricardo García.

O pequeno escritório tem caixões até o teto. Os mais vendidos são o pacote básico de US$ 400.

O local fica em Iztapalapa, município atormentado pela insegurança recorrente e agora o que mais tem casos no México, com registros de 5.746 infectados e 689 mortes.

O país, com 127 milhões de habitantes, teve até o último domingo 117.103 casos confirmados e 13.699 mortes.

Aos 29 anos, Ignacio é advogado e tem um escritório de direito mercantil, possui uma importadora, empresa de marketing e outra de consertos.

Seu irmão Mauricio, 26, é psicólogo. Ambos sentem que estão no "limite" de suas forças porque dedicam a maior parte do tempo à amada funerária.

"A COVID-19 nos exigiu 1.000% da nossa capacidade. Isso nos deixou no limite", explica Nacho na sala de vigília.

- Crematórios saturados -Ao meio-dia, Bertha já subiu as escadas de três andares da funerária, que também é sua casa, cerca de 15 vezes. Sem demonstrar cansaço, essa mulher pequena e magra, com cabelos brancos e sobrancelhas tatuadas, usa uma máscara para atender uma mulher que pede um orçamento para cremar o pai falecido pro causa do novo coronavírus.

"Quanto tempo demora?" o processo fúnebre, questiona a cliente, argumentando que o hospital ameaça enviar o corpo para uma vala comum, caso não seja removido em breve.

"Se eles já possuem a certidão de óbito, eu falo com o crematório agora para ver se podemos levá-lo amanhã ou depois de amanhã. Os turnos terminam muito rapidamente", explica a proprietária.

Viúva há quatro anos, Bertha se considera uma mulher "forte", tanto que diz que nem mesmo os retoques nas sobrancelhas doem.

"Mas isso é tão doloroso... Às vezes eu subo para chorar ao meio-dia. Estou com muito medo. Não era religiosa, mas agora todas as manhãs peço a Deus que pare sua fúria", confessa.

Se eu soubesse que uma pandemia ocorreria, "nunca teria me dedicado a isso", ressalta Bertha, que, como sua família, acredita que o governo "esconde números" de infecções e mortes. Apenas eles já receberam mais de cem falecidos.

Entre seus clientes está José Pérez, padeiro de 40 anos, que perdeu as duas irmãs para a doença na mesma semana.

- "Desgaste mental" -"Nós não acreditávamos [no vírus], você acredita quando você vive em sua própria pele. É muito doloroso ver como famílias inteiras estão se desfazendo", diz José no corredor de sua casa, em frente ao altar que ele colocou para homenagear suas irmãs, e onde há um cobertor pendurado pelas autoridades que alerta: "Cuidado! Você está entrando em uma área de alta contaminação".

A rotina fúnebre de Mauricio e seu tio Ricardo na funerária começa com a preparação para o uso do equipamento de segurança, que eles descartam diariamente.

"Já é desgaste mental ver tanta morte. Nós, que estamos vendo os hospitais, os necrotérios cheios, vemos que estão transbordando, assim como os crematórios", diz Mauricio, a caminho de um hospital ao sul da cidade.

Depois de verificar as informações sobre um corpo, Ricardo entra em uma sala cuja porta alerta: "Necrotério COVID".

Muito rapidamente, ele sai com uma nova vítima do vírus em seu carro fúnebre. Ele tem apenas 15 minutos para chegar ao crematório.

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