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Etiópia mantém intenção sobre represa no Nilo; União Africana pressiona por acordo

27/06/2020 16h17

Adis Abeba, 27 Jun 2020 (AFP) - A Etiópia manifestou neste sábado (27) sua intenção de começar a encher a reserva de sua represa gigantesca sobre o Nilo "nas próximas semanas", enquanto se comprometeu a tentar selar um acordo definitivo com Egito e Sudão durante este período, sob a mediação da União Africana (UA).

Um comunicado divulgado na manhã de hoje pelo gabinete do premier etíope, Abiy Ahmed, contradiz parcialmente declarações feitas na tarde de ontem pelos dirigentes egípcio e sudanês, segundo os quais a Etiópia havia concordado em adiar o enchimento de sua represa até o fechamento de um acordo.

A Grande Represa do Renascimento (Gerd), que será a maior barragem hidrelétrica da África, com capacidade de produção de mais de 6 mil megawatts, gerou forte tensão regional.

A Etiópia considera a represa de 145 metros de altura essencial para seu desenvolvimento e eletrificação. Sudão e Egito temem que vá restringir seu acesso à água.

O Egito, que considera a represa uma ameaça "existencial", apelou na última semana ao Conselho de Segurança da ONU que interviesse na disputa. Na próxima segunda-feira, o órgão terá uma nova reunião.

Dirigentes dos três países participaram ontem de uma reunião organizada e presidida pelo chefe de Estado sul-africano, Cyril Ramaphosa, presidente interino da UA.

O gabinete do presidente egípcio, Abdel Fatah al-Sisi, informou que "será apresentado em carta ao Conselho de Segurança da ONU um acordo final legalmente vinculativo para todas as partes, a ser considerado em sua próxima sessão que discutirá o tema da 'Barragem do Renascimento', na próxima segunda-feira".

O primeiro-ministro sudanês, Abdalla Hamdok, foi mais objetivo e disse em comunicado que "o acordado foi que o enchimento do reservatório será adiado até se chegar a um acordo". De acordo com seu gabinete, os comitês técnicos dos três países tentarão chegar a um acordo conclusivo em até duas semanas, como sugerido pela Etiópia.

"O Sudão é um dos maiores beneficiários da barragem e também um dos maiores perdedores caso os riscos não sejam mitigados, e é por isso que solicita ao Egito e a Etiópia a necessidade iminente de se encontrar uma solução", acrescentou Hamdok.

- Envolvimento da UA -No comunicado desta manhã, Adis Abeba não menciona estas informações como tais e parece manter seu calendário, enquanto afirma estar disposta a dar continuidade às discussões sobre um acordo definitivo.

"A Etiópia prevê começar a encher a Gerd dentro de duas semanas, durante as quais continuarão as obras de construção. Durante este período, os três países concordaram em chegar a um acordo final sobre as questões pendentes", indica o comunicado etíope.

As discussões haviam sido retomadas no começo de junho. Os principais obstáculos continuavam sendo o funcionamento da instalação no período de seca e os mecanismos para resolver possíveis discrepâncias.

A Etiópia tinha se mostrado reticente à implicação de terceiros no processo, especialmente após a tentativa de mediação dos Estados Unidos a pedido do Egito, que acabou em fracasso em fevereiro.

Em comunicado divulgado hoje, o governo de Abiy Ahmed, ganhador do Nobel da Paz de 2019, comemorou o envolvimento da UA no caso e reafirmou que "os problemas africanos devem encontrar soluções africanas".

Autoridades sudanesas informaram ontem que os comitês técnicos dos três países tentarão chegar a um acordo definitivo nas próximas duas semanas.

A União Africana afirmou neste sábado que "90% das questões relativas às negociações tripartites já estão resolvidas" e pediu a todas as partes que se abstenham de "qualquer ação" que possa complicar o resultado final.

O Egito teme que o reservatório afete gravemente o suprimento de água do Nilo, que fornece quase 97% de água doce ao país. Já a Etiópia afirma que a barragem é essencial para suas necessidades de energia elétrica e desenvolvimento econômico. O Nilo fornece água e eletricidade aos 10 países por onde passa.

rcb/fal/bc/es/lb/mvv