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Ásia central enfrenta segunda onda do coronavírus

Médico ajuda um idoso rumo à uma ambulândia em frente a um centro médico para coronavírus em Bishkek - DANIL USMANOV / AFP
Médico ajuda um idoso rumo à uma ambulândia em frente a um centro médico para coronavírus em Bishkek Imagem: DANIL USMANOV / AFP

09/07/2020 06h28

O telefone não para de tocar na central de consulta sobre a covid-19 de Bishkek, capital do Quirguistão, que, como outros países da Ásia central, enfrenta a segunda onda da pandemia.

"Quando abrimos no início de abril, muitas ligações não eram sobre questões médicas. Mas hoje, praticamente todas tratam dos sintomas do vírus", explica Askhat Adbykerimov, coordenador da central.

De acordo com o governo quirguiz, as ligações multiplicaram por 13 em junho. A central, que tem 60 profissionais da saúde e estudantes, recebe no mínimo 3.000 ligações por semana.

A cidade de Bishkek se tornou o novo epicentro da pandemia na Ásia central, após a flexibilização das medidas de confinamento em maio no Quirguistão, Uzbequistão e Cazaquistão.

Na terça-feira, o Quirguistão tinha mais de 5.000 casos ativos, ou seja, 10 vezes mais que antes do fim do confinamento em 25 de maio.

As autoridades declararam 99 mortes provocadas pelo novo coronavírus, mas as redes sociais estão repletas de manifestações de pêsames e pedidos de ajuda para hospitais saturados, o que indica que o balanço real é muito mais grave.

Aigul Sarykbayeva, de 54 anos, espera receber medicamentos no principal ginásio de esportes de Bishkek, transformado em hospital de campanha. Ela ainda não conseguiu fazer o teste da covid-19.

Depois de uma radiografia dos pulmões, ele foi diagnosticado com uma pneumonia. "Às vezes me pergunto se ainda conheço alguém que não ficou doente", afirma.

"Celebrar o quê?"

Os hospitais do Cazaquistão, a mais rica das cinco ex-repúblicas soviéticas da Ásia central, também estão saturados. O número de casos multiplicou por quatro desde o início de junho.

As autoridades cazaques, que lamentam a redução dos estoques de remédios, registravam até terça-feira mais de 49.000 casos e 264 mortes. Na semana passada, o país voltou a impor medidas de confinamento.

Em Almaty, capital econômica da nação, Yevgueni Yeremin espera em uma longa fila para comprar medicamentos como paracetamol.

Ele pensava que o coronavírus era uma "piada" ou "uma história política" até que seu avô morreu em consequência da doença e sua mãe ficou gravemente doente com sintomas da covid-19.

Nas redes sociais, muitas pessoas criticaram o espetáculo de fogos de artifício organizado na segunda-feira em Nur-Sultan, capital do país, para celebrar os 80 anos do dirigente histórico do país, Nursultan Nazarbayev, que testou positivo para o coronavírus, mas não apresentou sintomas.

"Fogos de artifício para celebrar o quê?", questionou Dimash Kudaibergen, um famoso cantor local, também muito conhecido na China.

"As pessoas não conseguem encontrar cilindros de oxigênio e, enquanto isso, organizam fogos de artifício", completou em sua página do Instagram, que tem mais de 3,3 milhões de seguidores.

Carências

No Quirguistão, país pobre da região, as autoridades têm pouca margem de manobra. O governo admitiu que, mais do que reforçar o sistema de saúde, a ajuda repassada pelas instituições internacionais permite sobretudo pagar os salários dos funcionários e compensar os déficits orçamentários agravados pela crise.

As ajudas têm sido muito úteis, no entanto, para a central de ajudas de Bishkek, que a princípio tinha apenas 12 voluntários e conseguiu ampliar o campo de ação.

Shamil Ibragimov, diretor da filial quirguiz da Fundação Soros, que apoiou o projeto, destaca, porém, que uma medida assim tem um impacto muito limitado, pois a central "não criará novas ambulâncias ou leitos de hospitais".

"Por onde você olha há carências em todo o sistema", lamenta.

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