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"Coração pulsante" de Beirute, bairro vira terreno desconhecido após explosão

Segundo o governador de Beirute, Marwan Abboud, mais de 300 mil pessoas ficaram desabrigadas na região - STR/AFP
Segundo o governador de Beirute, Marwan Abboud, mais de 300 mil pessoas ficaram desabrigadas na região Imagem: STR/AFP

05/08/2020 14h06

Os bares ao ar livre, onde jovens se reúnem todas as noites, estão devastados, as casas tradicionais centenárias destruídas, as galerias de arte aniquiladas: o bairro Mar Mikhael, que para muitos era o charme de Beirute, agora está reduzido a uma massa de ruínas.

"Mar Mikhael era o coração pulsante de Beirute", diz Lina Daoud, uma voluntária de 45 anos que distribui comida e água a equipes de resgate e moradores do bairro devastado na quarta-feira.

"Para mim, agora é um terreno desconhecido. Nunca pensei que chegaria o dia em que veria o bairro assim", acrescenta, enquanto soam as sirenes das ambulâncias que passam pelo setor.

O distrito fica perto do porto de Beirute, onde ocorreram duas grandes explosões na terça-feira, atingido áreas inteiras da capital libanesa e matando mais de 100 pessoas.

Hoje, mesmo os moradores do local, o destino preferido dos jovens por seus bares e discotecas, não o reconhecem mais.

Em sua tradicional casa centenária, Michel Asad recolhe os pedaços de vidro e os coloca em um balde, que ele despeja em uma pilha de escombros.

É como se um ciclone tivesse passado por sua casa, completamente devastada. Na entrada, ele imediatamente recolocou a estátua da Virgem Maria em seu lugar, embora tenha sido decapitada pela explosão.

"Eu morei nesta casa a vida toda. Eu poderia ter morrido aqui", diz esse homem de 53 anos, que não esconde sua raiva.

Com o dedo, ele aponta para as outras casas tradicionais que davam charme ao bairro.

As mais velhas desabaram, outras ficaram sem teto ou têm um enorme buraco na parede.

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Imagem: IBRAHIM AMRO / AFP

"Somos centenas, até milhares aqui" afetados pela explosão, acrescenta, mostrando a extensão dos danos.

Segundo o governador de Beirute, Marwan Abboud, até 300.000 pessoas ficaram desabrigadas em uma cidade de cerca de dois milhões de pessoas.

"Como a Segunda Guerra Mundial"

As calçadas da rua estreita estão cobertas de vidro quebrado e carros em ruínas, com airbags saindo das janelas, bloqueando a entrada nos carros enquanto seus donos esperam o reboque.

Os socorristas continuam procurando vítimas no bairro. Dezenas de pessoas, arrastando malas pesadas, deixam o local.

Uma senhora já idosa, mal carregando quatro malas, tenta atravessar a multidão e os escombros. Outra mulher, que não tem forças para sair de casa, é carregada por equipes de resgate que a puxam para fora em uma cadeira de madeira em que ela estava sentada em sua sala de estar.

Khalil, um homem de setenta anos e usando uma máscara, explica que vive no bairro há cerca de cinquenta anos, mesmo nos momentos mais críticos da guerra civil que atingiu o país entre 1975 e 1990.

"Durante a guerra, foguetes caíram em todos os lugares. Mas nunca vimos nada parecido. Não teríamos imaginado isso nem nos nossos piores pesadelos", diz.

"É como a Segunda Guerra Mundial", diz um transeunte, enquanto observa a destruição e os edifícios que ameaçam desmoronar a qualquer momento. Ao lado dele, uma mulher chora enquanto explica a cena da destruição para um amigo no telefone.

A voluntária Tala Masri tenta remover os pedaços de vidro da calçada com uma vassoura.

"Mar Mikhael é nossa segunda casa, especialmente para nós, jovens", diz essa estudante de 18 anos.

"Mesmo com p coronavírus e tudo o que aconteceu no país [crise política e econômica], eu sempre tive confiança. Mas agora, acabou, não tenho mais esperança", lamenta.

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