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Presidente do Peru encara julgamento de impeachment

Presidente do Peru, Martín Vizcarra, não conseguiu com que o Tribunal Constitucional acatasse seu pedido para suspender o julgamento - Andina/Xinhua
Presidente do Peru, Martín Vizcarra, não conseguiu com que o Tribunal Constitucional acatasse seu pedido para suspender o julgamento Imagem: Andina/Xinhua

Da AFP, em Lima (Peru)

17/09/2020 18h06

O presidente do Peru, Martín Vizcarra, comparecerá amanhã ao Congresso, que votará por seu impeachment sob pretexto de "incapacidade moral", mas seus opositores aparentemente não têm votos para removê-lo do poder.

Em um processo que corre acelerado, iniciado há apenas uma semana, a 10 meses do final de seu mandato, o presidente é acusado de instigar duas assessoras a mentir em uma investigação sobre a contratação de um cantor.

O Tribunal Constitucional rejeitou hoje uma medida cautelar solicitada por Vizcarra para suspender o julgamento, anunciou sua presidente, a juíza Marianella Ledesma.

No entanto, Ledesma destacou que o tribunal não concedeu a medida cautelar porque "o risco de vacância diminuiu", sinal de que os inimigos de Vizcarra não teriam votos para destituí-lo.

Vizcarra, que designou nesta quinta-feira o advogado Roberto Pereira Chumbe para defendê-lo no julgamento do Congresso, denunciou "um complô contra a democracia".

O engenheiro de 57 anos tem grande popularidade desde que assumiu o poder em 2018, após a renúncia de Pedro Pablo Kuczynski, do qual era vice-presidente.

Não há lutas ideológicas nessa polêmica, já que tanto o presidente quanto a maioria parlamentar são de centro-direita.

Também não estão em discussão os grandes problemas do Peru — a pandemia do coronavírus e a recessão econômica —, mas parece apenas uma luta pelo poder, na qual a situação com o cantor é somente um pretexto.

Em pesquisas, redes sociais e ruas (com panelaços), já foi possível compreender o apoio a Vizcarra: oito a cada dez peruanos querem que ele permaneça à frente do Executivo, segundo pesquisa da Ipsos.

Esse processo lembra duas iniciativas semelhantes contra seu antecessor Kuczynski (2016-2018), que levou à renúncia do ex-banqueiro, também no contexto de batalhas com o Congresso.

87 votos

A decisão de colocar Vizcarra diante do Congresso foi aprovada na última sexta-feira por 65 votos, 36 contra e 24 abstenções.

No entanto, os oponentes de Vizcarra aparentemente não têm votos para destituí-lo do poder, segundo a mídia peruana e a própria juíza Ledesma. São necessários 87 votos para declarar "vaga" a presidência.

O governante e seu advogado devem falar em um sessão que terá início por volta das 09h no horário local (11h no horário de Brasília) de amanhã, e será seguida de um longo debate antes da votação.

Em setembro do ano passado, Vizcarra dissolveu o Parlamento e convocou novas eleições legislativas para superar outra crise política.

Um desconhecido no poder?

Se Vizcarra for destituído, o líder do Congresso, Manuel Merino, um político discreto, assumirá o poder.

Sem partido ou bancada, Vizcarra ficou em uma situação difícil na quinta-feira passada, após a apresentação de alguns áudios no Congresso nos quais o presidente dava ordens a duas assessoras para que mentissem ao se apresentarem perante uma comissão parlamentar.

O escândalo estourou enquanto o presidente estava empenhado em lidar a pandemia em um dos países mais afetados, com mais de 744 mil casos e 31 mil mortes.

Mudança perigosa

A incerteza diante do processo de impeachment teve efeitos nocivos sobre a economia peruana, que já vive uma recessão por conta da pandemia: o preço do dólar subiu e a bolsa de Lima e as ações peruanas no exterior registraram queda.

"Mudar o governo neste momento para um governo composto pelo Congresso seria muito perigoso" em meio à crise econômica e da saúde, ressaltou o analista político Fernando Rospigliosi à AFP.

Surpreendentemente, a adversária política Keiko Fujimori, principal rival do Vizcarra, o defendeu, alegando que não há elementos suficientes para destituí-lo.

Cantor pouco conhecido

O escândalo começou em maio, quando a imprensa descobriu que, em meio à pandemia, o Ministério da Cultura havia contratado como palestrante Richard Cisneros, um cantor pouco conhecido que se gabava de ter sido assessor do governo.

O Parlamento abriu uma investigação sobre os contratos pelos quais Cisneros recebeu cerca de 50 mil dólares.

Na gravação que vazou, Vizcarra pede a suas assessoras Miriam Morales e Karem Roca que mintam sobre a quantidade de vezes que o cantor esteve no Palácio do Governo.

"É preciso dizer que ele foi duas vezes", em vez de cinco, Vizcarra diz a elas.

Roca foi quem gravou a conversa no gabinete presidencial, segundo a mídia peruana. Ambas as funcionárias perderam seus empregos há poucos dias.

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