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Reino Unido estuda endurecer política migratória e cria nova polêmica

24.jun.2016 - Marinha italiana resgata cerca de 5.000 migrantes ao largo da costa da Líbia - AFP
24.jun.2016 - Marinha italiana resgata cerca de 5.000 migrantes ao largo da costa da Líbia Imagem: AFP

01/10/2020 13h39

Enviar os migrantes no meio do Atlântico para velhas balsas, ou até criar ondas no Canal da Mancha para fazer suas embarcações se afastarem: as propostas do Reino Unido para endurecer sua política migratória geram polêmica.

O governo do primeiro-ministro conservador Boris Johnson, que transformou o controle migratório em seu novo cavalo de batalha depois do Brexit, assiste a um número recorde de tentativas de migrantes de atravessarem o Canal da Mancha, partindo da França, em barcos improvisados e, às vezes, com a mediação de traficantes de pessoas.

Em agosto, a ministra do Interior, Priti Patel, prometeu fazer o possível para tornar essa rota "intransitável". Várias opções de dissuasão foram contempladas, embora nenhuma tenha sido adotada até agora, de acordo com a imprensa britânica.

Plataformas de petróleo

De acordo com o jornal "Financial Times", o Ministério do Interior contemplou enviar os requerentes de asilo a mais de 6.000 quilômetros de distância do Reino Unido, no meio do Atlântico Sul, para as ilhas vulcânicas de Ascensão e Santa Helena, onde Napoleão morreu. Desistiram da ideia por razões práticas.

Outra proposta, relata o jornal, seria implantar navios que geram ondas para forçar os pequenos barcos a recuarem para as águas francesas - o que geraria "preocupações quanto ao risco de virar os migrantes".

O jornal "The Guardian" afirma que Downing Street considerou construir centros de tratamento para requerentes de asilo na Moldávia, no Marrocos, ou na Papua-Nova Guiné. A opção foi descartada por diplomatas.

De acordo com o "Times", o Executivo planejou, inclusive, reter os migrantes em plataformas de petróleo desativadas, antes de optar por balsas fora de serviço que lançariam âncora em alto-mar.

"Desenvolvemos projetos para reformar as políticas e a legislação sobre a imigração 'ilegal'" com o objetivo de "impedir abusos" e "criminalidade", reagiu um porta-voz de Boris Johnson, que não confirmou as notícias da imprensa.

"É extremamente importante dissuadir as pessoas de fazerem viagens que põem suas vidas em risco e que peçam asilo no primeiro país seguro, ao qual chegam", acrescentou.

"Nesse âmbito, observamos o que muitos outros países fazem", completou o porta-voz.

"Desumano"

Para muitos críticos, tanto da oposição quanto defensores dos direitos humanos, essas propostas derivam diretamente do bastante polêmico sistema australiano, condenado pela ONU.

A Austrália não aceita refugiados em seu território, mesmo aqueles que preencham os critérios para o direito de asilo. Os refugiados que não são rejeitados no mar são enviados para centros especializados nas ilhas do Pacífico.

As pistas mencionadas pelo Reino Unido constituiriam "o prolongamento do ambiente hostil" para com a migração "ilegal" já aplicado por sucessivos governos conservadores, disse Angieszka Kubal, professora de sociologia da University College London, à AFP.

"Os 'tories' [conservadores] passam de uma ideia desumana e impraticável para outra", o que demonstra que perderam "qualquer senso de compaixão", disse Nick Thomas-Symonds, responsável pelas questões de imigração na oposição trabalhista.

Para a Anistia Internacional-Reino Unido, enviar imigrantes para longe "ignora todas as considerações sobre [suas] necessidades, direitos e bem-estar".

A Refugee Action considera "profundamente perturbador que nossa ministra do Interior tenha chegado a contemplar que esse projeto imoral e desumano pudesse ser uma solução séria para uma crise humanitária".

Diante dos deputados, uma autoridade da ONU, Rossella Pagliuchi-Lor, convocou Londres a renunciar a esse plano: "Já vimos que o modelo australiano causou um sofrimento terrível a pessoas que nada podem fazer a não ser pedir asilo".

Antes de qualquer mudança de política, as forças de segurança tentam acabar com os traficantes de pessoas que iniciam os migrantes nesta perigosa travessia pelos 33 quilômetros que separam a costa francesa da Inglaterra.

Segundo as autoridades francesas, 6.200 migrantes tentaram a sorte nos primeiros oito meses do ano, a bordo de botes infláveis, de caiaque, ou mesmo com um simples flutuador.

Doze pessoas suspeitas de pertencerem a uma rede criminosa, que obteve "lucros enormes" com estas travessias, foram detidas esta semana no âmbito de uma vasta operação internacional.

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