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Crise no governo italiano após demissão de duas ministras

13/01/2021 20h48

Roma, 13 Jan 2021 (AFP) - A renúncia, nesta quarta-feira (13), de duas ministras do gabinete chefiado pelo primeiro-ministro, Giuseppe Conte, provocou uma crise no governo italiano em plena pandemia do novo coronavírus.

As renúncias da ministra da Agricultura, Teresa Bellanova, e da titular da Igualdade, Elena Bonetti, integrantes do partido Itália Viva, do ex-premier Matteo Renzi, representam uma ameaça para o governo, que perde apoio deste pequeno, mas decisivo, partido para manter a maioria no Parlamento.

A renúncia foi anunciada durante coletiva de imprensa por Renzi, que há algumas semanas lança ataques, vetos, e ultimatos internos a Conte, que lidera uma coalizão entre os antissistema do Movimento 5 Estrelas (M5E), o Partido Democrático de centro-esquerda (PD) e o esquerdista Livres e Iguais (LeU).

A crise do governo deixa a Itália sem leme em meio a uma pandemia que até agora matou mais de 80.000 pessoas e mergulhou a economia na pior recessão do pós-guerra.

Renzi criticou Conte por sua gestão da pandemia, tachada de solitária, assim como do plano de reconstrução do país para o gastos de recursos concedidos pela União Europeia (mais de 200 bilhões de euros ou 240 bilhões de dólares), adotado na véspera e que as ministras se abstiveram de aprovar.

"Não permitiremos que ninguém na Itália tenha plenos poderes. Isto significa que governar com decretos-lei, que por sua vez se transformam em outros decretos-leis (...), como ocorre há meses, é uma violação das regras do jogo. Exigimos respeito às regras democráticas", afirmou Renzi.

"Mas, não temos preconceitos nem propomos outras fórmulas" de governo, acrescentou Renzi, uma mensagem indireta para indicar que é a favor de um novo gabinete chefiado por Conte, após descartar qualquer aliança com a ultradireita de Matteo Salvini.

Durante um Conselho de Ministros na noite de quarta-feira, Conte lamentou "os danos notáveis que uma crise governamental" causa ao país "em plena pandemia". "Fui informado dessas demissões por e-mail e as aceitei", informou o primeiro-ministro, citado por vários veículos de comunicação.

- Negociações-chave -Renzi, que governou a Itália entre 2014 e 2016, fundou o Itália Viva em 2019 após deixar o PD, se situa por volta de 3%, segundo pesquisas, e conta com 30 deputados e 18 senadores, estes últimos chave para que a coalizão no poder mantenha a maioria.

O ex-premier, conhecido por ser petulante, criticou Conte por concentrar poder demais nas mãos e abusar das redes sociais, uma política que paradoxalmente ele inaugurou durante o seu mandato.

"Acho que deixou a solução nas mãos de Conte. O pedido de Renzi é, na realidade, para que o governo seja mais estável e unido de forma a enfrentar a crise sanitária e o plano de reconstrução do país", disse Maurizio Molinari, diretor do influente jornal La Repubblica, ao canal de notícias Rai News24.

Tudo parece indicar que será aberta uma série de negociações entre os partidos no poder, cujos pesos-pesados, o M5E e o PD, garantiram seu apoio a Conte.

"O país não entende esta crise", reconheceu o primeiro-ministro, um professor de direito sem passado político, mas que se demonstrou muito hábil na política.

"A situação é muito complexa, difícil, com tantos desafios", admitiu nesta quarta-feira à imprensa.

"É preciso trabalhar de forma construtiva, encontrar uma coesão entre as forças da coalizão", assegurou, em tom mediador.

A demissão das duas ministras do Itália Viva pode ser resolvida com uma solução rápida da crise ou a saída de Conte e a designação de um novo primeiro-ministro.

Por enquanto, Conte descartou pedir um voto de confiança no Parlamento, pois conta com o apoio de alguns setores da oposição para compensar a saída do partido de Renzi.

Uma possibilidade é que renuncie ao cargo e obtenha um novo mandato do presidente da República, Sergio Mattarella, para formar um novo gabinete, que inclua importantes ministérios para o partido de Renzi.

Segundo Lorenzo Castellani, de ciências políticas da Universidade Luiss de Roma, outra opção é a designação para primeiro-ministro de uma figura institucional, com um gabinete de "técnicos", que lide com a pandemia.

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