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Conteúdo publicado há
1 mês

EUA diz que príncipe saudita autorizou 'capturar ou matar' jornalista Khashoggi

26/02/2021 18h24

Washington, 26 Fev 2021 (AFP) - Os Estados Unidos suspenderam o sigilo de um relatório de Inteligência explosivo que revela que o príncipe-herdeiro da Arábia Saudita, Mohamed bin Salman, autorizou "capturar ou matar" Jamal Khashoggi, um jornalista radicado nos Estados Unidos, cuja morte causou indignação.

O príncipe, herdeiro do rei Salman e governante de fato do reino, "aprovou uma operação em Istambul, Turquia, para capturar ou matar o jornalista saudita Jamal Khashoggi".

Khashoggi era um jornalista crítico ao reino, que se radicou nos Estados Unidos após cair em desgraça com o príncipe-herdeiro. Em outubro de 2018, ele entrou no consolado saudita em Istambul para pedir uma certidão para se casar com sua noiva.

Segundo as autoridades turcas, ele foi assassinado na sede diplomática em 2 de outubro por um esquadrão de 15 sauditas que primeiro o estrangularam e depois esquartejaram seu corpo. Seus restos mortais nunca foram encontrados.

O relatório, de dois anos atrás, foi divulgado nesta sexta-feira de forma parcial pelo governo do presidente Joe Biden. O informe destaca que dada a influência do príncipe-herdeiro, é "altamente improvável" que o assassinato do jornalista acontecesse sem uma luz verde de sua parte.

"O príncipe-herdeiro vê Khashoggi como uma ameaça para o reino e em termos gerais apoiou o uso de medidas violentas para silenciá-lo", destacou o relatório.

Após a suspensão do sigilo, os Estados Unidos anunciaram sanções contra 76 sauditas relacionados com a morte de Khashoggi, que era colaborador do jornal The Washington Post, e anunciou que proibirá a entrada ao país de pessoas que ameaçarem dissidentes em seus países de origem.

"Deixamos claro que as ameaças extraterritoriais e os ataques da Arábia Saudita contra ativistas, dissidentes e jornalistas têm que terminar. Não serão tolerados pelos Estados Unidos", afirmou o chefe da diplomacia americana, Antony Blinken, em um comunicado.

A publicação do relatório ocorreu após uma conversa telefônica entre Biden e o rei Salman, após a Casa Branca indicar que o presidente terá o monarca como interlocutor e não seu herdeiro.

Na conversa, Biden destacou o compromisso de "ajudar a Arábia Saudita a defender seu território contra ataques de grupos aliados do Irã", mas também reafirmou a importância que seu país atribui aos direitos humanos.

Riade reagiu, afirmando que "rejeita totalmente" o relatório.

"O governo do reino da Arábia Saudita rejeita totalmente a avaliação negativa, falsa e inaceitável do relatório relativo a dirigentes do reino e destaca que contém informação e conclusões inexatas", informou a chancelaria em um comunicado.

- Um encontro infeliz -O experiente jornalista de 59 anos morava na Virgínia, mas foi informado pelas autoridades sauditas que ele teria de ir ao consulado de Istambul se quisesse obter uma série de documentos para se casar com sua noiva turca, Hatice Cengiz.

Lá, ele foi assassinado por um esquadrão comandado por um ex-conselheiro próximo do príncipe Mohamed, Saud al Qahtani.

Um mês depois do assassinato, a CIA concluiu com grande confiança que o príncipe herdeiro havia ordenado o assassinato, de acordo com o The Washington Post.

No entanto, o então governo de Donald Trump, que estava determinado a manter laços estreitos com Riad, recusou-se a responsabilizar publicamente o líder saudita, apesar de pedir a punição dos responsáveis.

O relatório indica que 15 pessoas foram enviadas à Turquia para a operação contra Khashoggi, incluindo membros da guarda de elite para a proteção do príncipe Mohamed, a brigada de intervenção rápida.

Os Estados Unidos anunciaram nesta sexta-feira sanções contra essa brigada.

Segundo o jornal The Washington Post, a inteligência americana também descobriu rastros de uma chamada do príncipe herdeiro para seu irmão, Khalid bin Salman, embaixador saudita em Washington. Na conversa, Mohamed lhe deu instruções para levar Kashoggi a Istambul.

- "Uma paródia de justiça" -Poucos observadores acreditam que tal assassinato poderia ter ocorrido sem o consentimento do príncipe Mohamed, visto que o governante prendeu vários críticos e facções de sua própria família.

Sob forte pressão dos Estados Unidos e da comunidade internacional, o governo saudita levou alguns dos perpetradores à justiça.

No processo a portas fechadas, dois oficiais de alto escalão considerados os mentores foram exonerados: Qahtani e o então vice-diretor dos serviços de inteligência Ahmad al Asiri. Ambos fazem parte do círculo mais íntimo do príncipe e nesta sexta-feira os Estados Unidos anunciaram sanções contra Asiri.

Cinco pessoas que não foram identificadas foram condenadas à morte e três outras a duras penas de prisão. Mas, nove meses depois, as sentenças de morte foram substituídas por penas de prisão de 20 anos.

A Anistia Internacional e a Repórteres Sem Fronteiras descreveram o processo como uma "paródia de justiça".

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