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1 mês

Exército eritreu matou 'centenas de civis' na região etíope de Tigré, diz Anistia

26/02/2021 13h29

Nairóbi, 26 Fev 2021 (AFP) - Soldados eritreus mataram "centenas de civis" em novembro de 2020 no Tigré, uma região em guerra do norte da Etiópia, em um massacre que possivelmente constitua um crime contra a humanidade - acusa a Anistia Internacional em um relatório publicado nesta sexta-feira (26).

A ONG se baseia em testemunhos de sobreviventes (refugiados no vizinho Sudão, ou contatados por telefone) e em imagens de satélite de Aksum, uma cidade no norte do Tigré.

"As provas são avassaladoras e levam a uma conclusão aterradora. As tropas etíopes e eritreias cometeram vários crimes de guerra em sua ofensiva para tomar o controle de Aksum", denunciou o diretor regional da ONG para o leste e sul da África, Deprose Muchena.

"Além disso, as tropas da Eritreia se espalharam e mataram sistematicamente centenas de civis a sangue frio, o que parece constituir crimes contra a humanidade. Esta atrocidade está entre as mais documentadas até a data neste conflito", relata.

Tigré é palco de combates desde que o governo etíope lançou uma operação militar em 4 de novembro contra as forças da Frente de Libertação Popular do Tigre (TPLF,na sigla em inglês), partido que governava a região e que Addis Abeba acusa de ter atacado bases do Exército federal.

O primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed, proclamou vitória no conflito em 28 de novembro passado, após recuperar o controle da capital regional, Mekele, mas a TPLF diz que continuará lutando. Os combates persistem.

Desde o início do conflito, há quase quatro meses, Tigré não tem acesso à Internet, e os movimentos são restritos, o que dificulta a verificação de informações no terreno.

Moradores, membros das organizações de ajuda humanitária e funcionários locais dizem que tropas chegaram da Eritreia, um país que faz fronteira com o Tigré, para apoiar as forças etíopes. Asmara e Addis Ababa negam.

Os dois países se enfrentaram em uma guerra entre 1998 e 2000, quando a TPLF estava no poder na Etiópia e aproximaram posições por iniciativa de Abiy Ahmed, ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 2019. As autoridades eritreias e a TPLF continuam se odiando.

Por seu lado, o governo da Eritreia rejeitou nesta sexta as afirmações da ONG. "A Eritreia está indignada e rejeita categoricamente as acusações absurdas levantadas contra ela pela Anistia Internacional em um relatório falso divulgado hoje", tuitou o ministro da Informação, Yeman Gebremeskel.

- "Muitos mortos nas ruas" -Segundo 41 sobreviventes e testemunhas entrevistados pela Anistia, as tropas etíopes e eritreias tomaram o controle de Aksum em 19 de novembro, "em uma grande ofensiva, matando e deslocando civis mediante bombardeios e disparos indiscriminados".

"Nos nove dias seguintes, o Exército da Eritreia fez saques generalizados e execuções extrajudiciais", afirma a Anistia.

As testemunhas identificaram os eritreus por seus veículos, seu idioma e suas características escarificações faciais. Alguns admitiram abertamente sua nacionalidade.

Os atos mais violentos aconteceram nos dias 28 e 29 de novembro, em represália ao ataque de um grupo de milicianos pró-TPLF contra militares eritreus.

No dia seguinte, os soldados atiraram em quem queria levar os corpos e revistaram as casas. Um homem disse ter visto, na frente de sua casa, soldados alinhando seis homens antes de matá-los pelas costas.

A Anistia afirma ter coletado os nomes de mais de 240 vítimas, mas não conseguiu verificar esse saldo de forma independente.

As imagens de satélite mostram rastros de valas comuns perto de duas igrejas, segundo a ONG.

Nesta sexta-feira, a Comissão Etíope de Direitos Humanos (EHRC), um órgão público independente, declarou em um comunicado que as revelações da Anistia devem ser levadas "muito a sério".

A Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, afirmou que é "vital" uma "investigação confiável sobre todas as alegações" em Tigré, incluindo "massacres, execuções extrajudiciais e outros ataques contra civis, incluindo violências sexuais".

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