PUBLICIDADE
Topo

Conteúdo publicado há
1 mês

Vacinas contra a covid-19, no coração de uma nova batalha diplomática

03/03/2021 17h49

Paris, 3 Mar 2021 (AFP) - A tão esperada vacina contra o coronavírus se transformou no campo de batalha diplomática entre as grandes potências mundiais, com Rússia e China na liderança e Europa e Estados Unidos em segundo plano.

"O acesso às vacinas é o maior desafio que a comunidade internacional enfrenta. Quase como uma nova 'corrida armamentista'", segundo o centro de análise americano Soufan.

Para potências como China, Rússia e Índia, a carta de prestígio é jogada nos países mais pobres, onde eles se impuseram como os provedores deste escasso "bem público mundial". Enquanto isso, Estados Unidos e a União Europeia, muito afetados pela pandemia, reservam as doses das vacinas para sua população.

Pequim, cuja imagem foi reforçada no início da pandemia por ter um estoque abundante de máscaras, não parou de anunciar envios de doses (incluindo doações) para países africanos como Argélia, Senegal, Serra Leoa e Zimbábue (200.000 vacinas), assim como aos países latino-americanos como Venezuela (500.000) e República Dominicana (768.000).

Apesar de ser recebida na Europa entre sorrisos de superioridade, a vacina Sputnik V, recentemente coroada com uma boa avaliação da revista médica britânica The Lancet, colocou a Rússia na esteira chinesa.

Três países da União Europeia, Hungria, Eslováquia e República Tcheca (localizados na órbita soviética durante a Guerra Fria) optaram pela vacina russa sem esperar sua aprovação pela Agência Europeia de Medicamentos.

- "Propaganda de imagem" -"Dar sinais para o mundo de que, no final, a Rússia sofreu menos pelo coronavírus que os Estados Unidos e que é mais eficaz (nas vacinas) que a Europa ocidental, é uma boa forma de reconstruir seu poder", estima Bertrand Badie, professor de Relações Internacionais na Escola de Ciência Política (Science Po) em Paris.

No entanto, a Rússia sofre as consequências de sua limitada capacidade de produção e deve compartilhar o aumento da influência com a China.

Com a ajuda de Pequim, por exemplo, a Sérvia está na liderança da vacinação contra o coronavírus na Europa, e a Hungria encomendou cinco milhões de doses da Sinopharm chinesa, o suficiente para vacinar um quarto de sua população.

"Pequim antecipa assim uma futura cooperação com os países que ajuda", aponta o instituto alemão Stiftung Wissenschaft und Politik (SWP).

"Mas, acima de tudo, a China quer ser vista como uma 'grande potência responsável'", observa o SWP. Além disso, procura fazer com que as pessoas esqueçam sua falta de transparência quando a covid-19 surgiu por lá no final de 2019.

Algumas notícias geram ansiedade no meio da batalha contra a pandemia.

As polícias da China e da África do Sul apreenderam milhares de doses de vacinas falsas contra a covid-19, informou nesta quarta a organização internacional Interpol, que considerou ser apenas a "ponta do iceberg".

- Maratona -A Índia, um gigante mundial na produção de vacinas, abasteceu seus vizinhos (Nepal, Bangladesh, Sri Lanka) com a mesma ambição: "ampliar sua influência", disse o Centro Soufan.

A farmacêutica indiana Bharat Biotech indicou nesta quarta-feira que sua vacina Covaxin, muito criticada por ter sido lançada antes dos testes finais, atinge uma eficácia de quase 81% na prevenção da covid-19.

Israel também usou a vacina como arma diplomática. Campeão mundial da vacinação, reservou doses para Honduras e República Tcheca, que planejam abrir embaixadas em Jerusalém.

Os Emirados Árabes Unidos também doaram doses para Gaza, território palestino sob bloqueio israelense, e para a Tunísia.

Nesta nova "corrida armamentista", os europeus ficaram para trás, mas não admitem a derrota.

Os russos e os chineses avançaram "de maneira um tanto selvagem, sem passar por todos os processos de validação", disse um alto diplomata europeu. "Mas isso continua sendo uma maratona, haverá ao menos una segunda ou até mesmo uma terceira parte".

O presidente francês Emmanuel Macron propõe que Europa e Estados Unidos entreguem 13 milhões de doses de vacinas à África "o mais rápido possível", uma questão de "credibilidade" em sua opinião.

Ao mesmo tempo, aumenta a tensão com o atraso da campanha de vacinação no continente.

O primeiro-ministro italiano, Mario Draghi, pediu na quarta-feira à chefe da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, um "piso no acelerador" na campanha.

vl/fz/grp/meb/mb/aa/ap/mr