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1 mês

Milhares de manifestantes desafiam restrições anticovid no Dia da Mulher

08/03/2021 23h19

Paris, 9 Mar 2021 (AFP) - Do Paquistão ao México, passando por Grécia, Espanha e Argentina, dezenas de milhares de pessoas desafiaram as restrições impostas pelo coronavírus em todo o mundo para comemorar, às vezes em situações perigosas, o Dia Internacional da Mulher e denunciar a violência de gênero.

Tanto em democracias pacíficas quanto em países mergulhados em grandes conflitos, as mulheres foram às ruas, ainda que em número muito menor do que no ano anterior, quando a pandemia ainda não havia atingido sua expressão máxima.

Milhares se manifestaram no centro da Cidade do México, onde, antes do início da marcha, algumas mulheres encapuzadas derrubaram as cercas instaladas para proteger o Monumento à Revolução.

Na barreira foram colocadas fotos com nomes e sobrenomes de supostos estupradores, feminicídas e assediadores para protestar contra a violência sofrida por mulheres neste país, onde 967 feminicídios foram registrados só em 2020.

"Juntas, queimamos", dizia um cartaz. Outro dizia: "Juntas somos fogo, queimem tudo."

"Sou grata por minha filha estar viva. Minha filha foi estuprada", revelou à AFP Letícia Reséndiz, 45, funcionária do governo local.

Milhares de mulheres também se mobilizaram na Argentina, um país que enfrenta uma onda de feminicídios, com média de um por dia até agora em 2021.

Sob o lema "Parem de nos matar", grupos políticos de esquerda, organizações sociais e sindicatos aderiram à convocação em Buenos Aires, menos lotada do que de costume, mas que foi replicada em outras cidades.

Para tentar evitar multidões devido à covid-19, no vizinho Uruguai dezenas de eventos foram organizados de forma descentralizada, embora também houvesse uma concentração na avenida principal de Montevidéu.

Na Colômbia, milhares de manifestantes desafiaram as restrições e se reuniram em diferentes partes de Bogotá usando lenços roxos, um símbolo da batalha contra o feminicídio, que em 2020 deixou 186 vítimas no país.

"Precisamos nos fazer sentir, devemos tornar visíveis todas as lutas que vivemos no dia a dia e hoje é o melhor dia para isso", afirmou Susana Díaz, de 21 anos.

A centena de ativistas que se reuniu em frente ao Ministério Público em Honduras para pedir justiça para a enfermeira Keyla Martínez, falecida há um mês sob custódia policial, também vestiu roxo.

"Aqui a vida de uma mulher não vale nada", lamentou María Julia Ávila, 49.

- Poderosas -Na França, onde uma mulher é morta a cada três dias por seu parceiro ou ex-parceiro, de acordo com dados do governo de 2019, dezenas de milhares marcharam em grandes cidades pedindo mais ações oficiais contra o feminicídio.

Na Turquia, várias centenas de mulheres muçulmanas uigures protestaram perto do consulado da China em Istambul, pedindo o fim dos campos de encarceramento em massa na região de Xinjiang.

"O estupro é um crime contra a humanidade", dizia um cartaz, referindo-se a uma reportagem da BBC que denunciou estupros sistemáticos e a esterilização forçada de mulheres nesses campos, o que Pequim nega.

Três das mulheres mais influentes do planeta alertaram o Parlamento Europeu sobre o efeito da pandemia do coronavírus sobre seus direitos.

As consequências econômicas e políticas exacerbaram os desafios enfrentados pelas mulheres, segundo a vice-presidente dos EUA, Kamala Harris, a primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.

"A covid-19 ameaça a saúde, a segurança econômica e a segurança física das mulheres em todos os lugares", afirmou Harris em um vídeo gravado em Washington.

- #MeToo na Grécia -Na Grécia, onde a mídia está repleta de reportagens relacionadas ao assédio sexual, centenas de mulheres se reuniram na Praça Sintagma, no centro de Atenas.

"Isso é mais importante hoje em dia em comparação com os anos anteriores, precisamente porque estamos passando pelo movimento #MeToo na Grécia", disse a atriz Marilena Kavazi à AFP.

Na Espanha, onde o movimento feminista ganhou grande força nos últimos anos, milhares de pessoas percorreram as ruas das principais cidades e dezenas em Madri, onde o protesto foi proibido por causa do coronavírus.

"Se eu acordar amanhã e não houver desigualdade, não irei. Enquanto houver, continuarei indo", declarou com sarcasmo Mireia Mata, uma mulher de 54 anos de Barcelona.

Em Varsóvia, homens e mulheres protestaram contra a proibição quase total do aborto após um recente endurecimento das normas na Polônia.

As floriculturas na Hungria puderam abrir nesta segunda, apesar do fechamento do comércio não essencial devido à pandemia, já que os húngaros costumam comprar flores para mulheres nessa data.

Mais de 2 mil pessoas pediram na Ucrânia uma maior proteção às mulheres e a ratificação da Convenção de Istambul pelo país.

- Linha de frente em Mianmar -Centenas de mulheres protestaram na capital da Argélia, Argel, para exigir a revogação do código da família, adotado em 1984 e inspirado em parte pela lei islâmica (Sharia). De acordo com as feministas, ele as torna "menores para o resto da vida".

Na Índia, muitas mulheres foram para os arredores da capital para unir forças com os agricultores que protestam há meses contra as controversas reformas do governo.

Muitas não usavam máscaras e ignoravam o distanciamento físico, apesar da Índia ter uma das taxas mais altas de infecção e morte por covid-19 da Ásia.

Na vizinha Mianmar, onde os militares tomaram o poder no mês passado, as mulheres estiveram na linha de frente das manifestações pró-democracia em Yangon.

As forças de segurança mataram mais de 50 pessoas e prenderam quase 1.800 em uma repressão cada vez mais brutal aos protestos.

"Geralmente, a liderança parece ser só coisa de homem", disse Cora, uma manifestante de 33 anos. "Nesta revolta, as mulheres foram às ruas e lideraram os protestos."

- Aumento das desigualdades -Também ocorreram passeatas em um Paquistão profundamente conservador. E centenas de pessoas, a maioria integrantes do grupo de mulheres Gabriela, protestaram nas Filipinas contra o assassinato de ativistas no domingo.

"A covid-19 aumentou as desigualdades e isso também afetou a forma como as mulheres estão se organizando", afirmou à AFP a legisladora Sarah Elago, que alertou que agora as mulheres "estão sendo atacadas por falarem".

A Unicef publicou relatório em que adverte que, em alguns países, os efeitos do coronavírus podem provocar 10 milhões de casamentos infantis nesta década.

E o Comitê de Segurança de Jornalistas Afegãos indicou que mais de 300 mulheres jornalistas se demitiram ou perderam seus empregos nos últimos seis meses, conforme se intensifica a onda de assassinatos, alguns de repórteres do sexo feminino, contra a imprensa no país.

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