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7 meses

Republicanos tentam rentabilizar primeira crise do governo Biden

22/03/2021 21h48

Washington, 23 Mar 2021 (AFP) - Após 60 dias de governo sem grandes turbulências, a situação de Joe Biden se complica: o presidente dos Estados Unidos é criticado por não dar a importância necessária à crise da fronteira com o México e de gerenciar o tema sem a devida importância.

Questionado pelos adversários republicanos, mas também por algumas vozes dentro do Partido Democrata, Biden inicia uma semana delicada, na qual falará pela primeira vez em coletiva de imprensa nesta quinta-feira.

"Apesar de seu governo não admitir que trata-se de uma crise, os americanos estão começando a entender a gravidade da situação", declarou nesta segunda-feira o senador republicano Ted Cruz, que viajará à fronteira esta semana com outros 14 colegas.

Cruz acusa a Casa Branca de tentar "ocultar a verdade" ao denunciar a proibição à presença de jornalistas nos centros de detenção de migrantes, especialmente os que albergam menores de idade desacompanhados.

O fluxo de milhares de migrantes da América Central rumo aos EUA deu aos republicanos, que ainda não haviam encontrado um ângulo de ataque para lidar com a pandemia, uma oportunidade de serem ouvidos. Em uníssono, a oposição agora acusa o presidente de ter atraído viajantes ilegais para a fronteira com o México e de ter sido muito ingênuo.

Dois senadores, o republicano John Cornyn e a democrata Kyrsten Sinema -que representam Texas e Arizona, dois estados fronteiriços com o México, pediram ao presidente uma resposta contundente.

"É uma loucura e não é nada comparado ao que será nos próximos meses", criticou Donald Trump no podcast da apresentadora americana Lisa Boothe, que fio ao ar nesta segunda-feira de manhã.

"Eles virão aos milhões", previu o ex-presidente republicano, gerando polêmica e retomando o tom de sua campanha após ter permanecido muito discreto desde que deixou a Casa Branca e se mudou para a Flórida.

- Biden discreto -Biden evitou em grande parte o problema até agora, permitindo que sua equipe tomasse a dianteira, mas quando for confrontado com perguntas dos repórteres na quinta-feira, sabe que precisará ir direto ao ponto.

Questionado na noite de domingo em seu retorno de um fim de semana em Camp David, o presidente foi evasivo: O senhor pretende visitar a fronteira? "Em algum momento, sim." O senhor não sente a necessidade de ver por si mesmo o que está acontecendo? "Eu sei o que está acontecendo", respondeu.

Outro detalhe revelador é que os últimos dez tuítes de Biden falam sobre máscaras, vacinação, Dia de São Patrício, plano de estímulo econômico, mudanças climáticas, violência contra os asiático-americanos, mas não há menção da situação na fronteira com o México.

Esta crise afeta os planos da Casa Branca, que pretendia continuar fortalecendo a campanha "Help is here" (Ajuda está aqui) para sublinhar os méritos do gigantesco plano de ajuda à economia (de 1,9 trilhão de dólares) aprovado pelo Congresso e muito popular entre a população americana.

O único deslocamento presidencial da semana está marcado para esta terça-feira, em Ohio, para destacar o impacto positivo do "American Rescue Plan" (Plano de Resgate Americano) no setor sanitário.

Mas enquanto legisladores de ambos os campos multiplicam suas idas à fronteira e as primeiras fotos de menores desacompanhados - o centro da polêmica - são divulgadas, a presidência não consegue explicar como pretende agir.

Biden prometeu acabar com "uma vergonha moral e nacional" herdada de seu antecessor, referindo-se à separação de milhares de famílias de migrantes, algumas das quais ainda não foram reunidas.

Apesar das crianças não serem mais separadas das famílias, a chegada de um número significativo de menores desacompanhados é uma realidade.

"A fronteira não está aberta. A maioria das pessoas está sendo recusada", garantiu nesta segunda-feira a porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki. "Em relação às crianças, estamos trabalhando para que o processo seja o mais rápido possível", completou.

- Sem acesso -O chefe do Departamento de Segurança Interna (DHS), Alejandro Mayorkas, amplamente criticado por suas mensagens às vezes confusas, não desmentiu a informação de que há 5.200 crianças atualmente detidas em centros para adultos nas fronteiras, bem acima do pico registrado durante a presidência de Trump.

O senador democrata Chris Murphy afirmou na última sexta-feira, depois de visitar um desses centros polêmicos, que "centenas de crianças" foram "amontoadas em grandes salas abertas".

Em um artigo de opinião publicado no The Washington Post, o fotógrafo John Moore, autor de um livro sobre a fronteira dos Estados Unidos com o México, se mostrou indignado com a mudança da política de "tolerância zero" (para com os imigrantes) de Trump para o "acesso zero" (dos jornalistas) com Biden.

"O atual governo veio com a promessa de tornar a política de imigração dos Estados Unidos mais humana e transparente. Mas está falhando nesse segundo ponto, então é difícil ter uma ideia do primeiro", escreveu.

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