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Presidiárias 'cultivam' liberdade em El Salvador

Lizbeth aprendeu a cultivar vegetais e criar coelhos para se alimentar - Marvin Recinos/AFP
Lizbeth aprendeu a cultivar vegetais e criar coelhos para se alimentar Imagem: Marvin Recinos/AFP

Em Izalco (El Salvador)

16/05/2021 13h25

Lizbeth cumpre pena de oito anos por roubo. Em uma fazenda em El Salvador, ela aprende a cultivar vegetais e criar coelhos para se alimentar, tarefa que continuará quando recuperar a liberdade.

São 59 presidiárias em "fase de confiança", fora de uma cela, que dormem em quartos instalados na Granja Izalco, um centro penitenciário incomum 60 km a oeste de San Salvador.

Umas criam e cuidam dos animais e outras se dedicam à produção agrícola onde, além do céu, também ganham redenção. Por cada dia de trabalho na fazenda, as internas acumulam dois dias de redução da pena.

Elas também obtêm seu próprio alimento. Fazem parte de um novo programa do governo de Nayib Bukele que, segundo o diretor dos Centros Penais, Osiris Luna, tem como objetivo que "os privados de liberdade cultivem, cozinhem e consumam a própria comida".

"Podemos chegar a economizar cerca de 10 milhões de dólares, essa é a meta para os quase 39 milhões de dólares" investidos em alimentação por ano nos presídios, explica Luna.

Atualmente, uma empresa privada fornece as refeições nos presídios, então a meta para o início do próximo ano é ter 4.100 pessoas trabalhando na área de cozinha e 3.000 em diferentes fazendas.

"Meus filhos e minha mãe estão esperando por mim. Logo vou recuperar minha liberdade", diz Lizbeth Velado, de 33 anos, segurando um dos coelhos que ela cuida.

"Quando eu tiver minha liberdade planejo começar uma criação de coelhos (...) não é um trabalho difícil", assegura.

- Estímulo -O centro está localizado em uma área de 35 hectares e inclui os quartos das internas, escritórios administrativos, áreas de criação de suínos e coelhos, além de hortas. Também tem uma creche com quase cinquenta menores, para presidiárias com filhos pequenos.

Vestindo calça azul e suéter amarelo, saem para trabalhar no campo com chapéu ou lenço na cabeça para se proteger do forte sol da América Central. Colhem pimentão, tomate, repolho, pepino, alface, milho, feijão e ervas aromáticas.

O trabalho diário permite que várias, com filhos maiores, se distraiam da saudade de ter a família longe.

"Tenho três filhos e dói não estar com eles, mas é o que me motiva a seguir em frente", afirma Alma Yanira Rodas, de 31 anos, que já cumpriu sete anos de uma sentença de dez por extorsão.

"Quando eu sair daqui espero ser uma mulher melhor, uma mãe melhor", espera.

Com uma população de 6,5 milhões de habitantes, El Salvador tem 621,8 presos para cada 100 mil habitantes, segundo dados do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC). Isso o coloca como o segundo país do mundo em população carcerária, em números relativos, de acordo com o relatório World Prison Population List de 2018, da University of London.

Dos quase 36 mil reclusos, 2.602 são mulheres e 15.949 pertencem a gangues violentas.

A experiência de Izalco busca que as mulheres privadas de liberdade "aprendam técnicas (e) que na hora de partirem possam colocá-las em prática", diz à AFP Norma Osorio, engenheira agrônoma de 29 anos que coordena o trabalho.

Segundo a especialista, El Salvador tenta ser "uma boa referência" para que outros países apliquem esse programa aos seus cidadãos que estão presos.

"Buscamos ser reconhecidas na América Latina pela sustentabilidade, desde o momento da produção até o consumo", enfatiza Osório.

Jazmín Rivera, de 26 anos, está presa há três anos e oito meses, com pena total de dez anos por "extorsão agravada". Mas com esse mecanismo, poderá sair em 2024.

"Nós merecemos uma oportunidade. Se antes pensávamos coisas ruins, agora não pensamos. Quando colocamos os pés na prisão, a vida muda", garante.

"Aqui aprendemos a valorizar. É como uma escola".

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