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Sem amizade à vista, Putin e Biden visam relação respeitosa

16/06/2021 20h59

Genebra, 16 Jun 2021 (AFP) - Na primeira cúpula do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e seu homólogo russo, Vladimir Putin, não houve espaço para devaneios sobre amizade ou um relacionamento próximo entre os dois líderes.

Em vez disso, a cúpula entre Putin e o quinto líder americano de seu governo foi de respeito mútuo, com ambos os mandatários indicando que a reunião poderia levar a um relacionamento mais previsível, mesmo que as tensões continuem.

Ao contrário de seus antecessores, Biden não disse que espera recomeçar do zero o relacionamento e, em vez disso, levantou uma série de preocupações com a Rússia, incluindo a intervenção nas eleições americanas, os ataques de hackers à infraestrutura dos Estados Unidos e o envenenamento e a prisão de Alexei Navalny, principal opositor de Putin.

Ainda assim, a cúpula marcou uma distensão na retórica, depois que, meses atrás, Biden chamou Putin de "assassino". Desta vez, o democrata o chamou de "um adversário digno" e disse que ambos buscariam áreas de interesse comum.

Putin também se referiu a Biden como "um político muito experiente", capaz de falar detalhadamente durante as "muito construtivas" três horas de negociações.

"Biden é geralmente alguém que deseja relacionamentos construtivos. Ele não considera Putin um amigo", afirmou Ian Bremmer, presidente da consultoria Eurasia Group.

Assim como o presidente chinês, Xi Jinping, Biden "não confia (nos russos), mas espera que a Rússia aja de acordo com seus interesses, então os dois países devem encontrar interesses comuns para trabalhar juntos", acrescentou Bremmer.

Ele observou que o teste decisivo do relacionamento virá mais tarde.

"Quero ver se nos próximos três meses teremos menos ataques cibernéticos de 'ransomware' e nada parecido com o que tivemos contra o Pipeline Colonial vindo da Rússia. Isso será absolutamente crítico", enfatizou.

Várias empresas americanas, incluindo a rede de oleodutos da Colonial Pipeline, foram alvo de ataques recentes usando ransomware, um programa que criptografa sistemas de computador e exige um resgate em dinheiro para desbloqueá-los.

- De olho no futuro -Putin não fez promessas sobre crimes cibernéticos em sua entrevista coletiva, mas Biden disse que o líder russo "sabe que haverá consequências" para as ações de seu país.

Os presidentes indicaram que os embaixadores de cada país darão sequência às negociações e que os diplomatas trabalharão na libertação de prisioneiros.

"Não tenho certeza de como poderia ter sido melhor, mas poderia ter sido muito pior. Poderia ter tido xingamentos, sermões, um ignorando o outro", analisou Yuval Weber, um especialista russo no Instituto Kennan e um professor na A&M University do Texas.

Ao contrário da Guerra Fria, quando os líderes dos Estados Unidos e da União Soviética se reuniram para assinar acordos sobre grandes questões, como o arsenal nuclear, Biden e Putin nunca previram grandes avanços em Genebra, de acordo com Weber.

"O que eles procuravam era ver se conseguiam se dar bem o suficiente pessoalmente para continuar conversando", completou.

Weber indicou que Putin é sensível ao que as pessoas dizem sobre ele e possivelmente não se sentiu à vontade com os primeiros comentários de Biden sobre ele.

Mas, ao chamar Putin de "adversário digno" e ao descrever a Rússia como uma nação poderosa, Biden segue a estratégia de "dizer coisas nas quais Putin pode se encaixar".

- Divisão nos EUA -O ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama enfureceu Putin ao chamar a Rússia de "potência regional" agindo "não por força, mas por fraqueza".

Mas Obama chegou ao poder, como seus antecessores, na esperança de restaurar as relações com a Rússia. Antes dele, George W. Bush comentou depois de se encontrar com Putin em 2001: "Pude ter uma ideia de sua alma".

Donald Trump quebrou o molde ao expressar admiração por Putin. Depois de uma cúpula em Helsinque em 2018, Trump foi criticado até mesmo em seu próprio Partido Republicano ao aceitar como verdadeira a negativa de Putin de ter interferido nas eleições americanas de 2016.

Ainda assim, os republicanos criticaram Biden pela cúpula de Genebra, afirmando que o encontro com Putin deveria ter sido mais conflituoso.

"As cúpulas devem ter resultados", disse Jim Risch, senador republicano do Comitê de Relações Exteriores. "Saber que não houve avanços tangíveis com a Rússia em qualquer questão é lamentável e decepcionante", completou.

Mas o senador democrata Bob Menendez, presidente desse comitê, elogiou Biden por "dizer a verdade francamente" a Putin.

"Este foi um banho de realidade necessário para Putin e uma pausa bem-vinda dos últimos quatro anos de mimos de Trump com o Kremlin", concluiu Menendez.

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