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Com adversários presos, Ortega tem a via aberta para a reeleição na Nicarágua

29.ago.2018 -  O Presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, discursa durante a comemoração do 51º aniversário da campanha da guerrilha Pancasana em Manágua - INTI OCON / AFP
29.ago.2018 - O Presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, discursa durante a comemoração do 51º aniversário da campanha da guerrilha Pancasana em Manágua Imagem: INTI OCON / AFP

Da AFP, em Manágua

22/06/2021 05h59Atualizada em 22/06/2021 06h43

A prisão no domingo (20) do quinto opositor com intenções de se candidatar à Presidência antecipa eleições com a via livre para um quarto mandato de Daniel Ortega na Nicarágua, embora provavelmente ele vá precisar negociar para evitar o isolamento internacional.

A cinco meses das eleições foram detidas 17 pessoas, entre líderes políticos, ex-guerrilheiros dissidentes, jornalistas, empresários e até um banqueiro, acusados de "incitar a ingerência estrangeira" e "aplaudir sanções" contra o governo sandinista, no poder desde 2007.

Os últimos detidos, na segunda-feira à noite, foram a ex-primeira-dama María Fernanda Flores, esposa do ex-presidente Arnoldo Alemán (1997-2002), com prisão domiciliar, e o cronista esportivo Miguel Mendoza.

"Ortega está demostrando que não está disposto a abrir mão do poder. Ele veio para ficar e pagará qualquer preço para se perpetuar", disse à AFP a escritora nicaraguense Gioconda Belli, por WhatsApp, dos Estados Unidos.

Para ela, as eleições "serão um teatro". Com a detenção de vários pré-candidatos, ela acredita que "a oposição não deve participar".

As ações do governo Ortega, líder da ex-guerrilha de esquerda Frente Sandinista para a Libertação Nacional (FSLN), motivaram sanções da comunidade internacional por socavar a democracia e atentar contra os direitos humanos.

Demonstrações de força

O último pré-candidato preso foi Miguel Mora em uma operação policial iniciada em 2 de junho com a detenção de Cristiana Chamorro, de 67 anos, filha da ex-presidente Violeta Barrios de Chamorro e favorita para enfrentar Ortega nas eleições de 7 de novembro.

Também foram detidos o ex-diplomata Arturo Cruz, o cientista político Félix Maradiaga ou o economista Juan Sebastián Chamorro, primo de Cristiana.

Ortega, de 75 anos, enfrenta uma crise política desde 2018, após manifestações contra seu governo que deixaram 328 mortos e milhares de exilados, segundo organismos humanitários.

Para o governo, tratou-se de uma tentativa de golpe de Estado patrocinado por Washington.

A vice-presidente e esposa de Ortega, Rosario Murillo, disse que só os que cometem delitos são "perseguidos".

Em um documento divulgado à imprensa, o governo assegurou que os pré-candidatos presidenciais presos são "usurpadores" financiados pelos Estados Unidos para derrotar Ortega.

Embora Ortega não tenha formalizado suas intenções de disputar um quarto mandato consecutivo, seus adversários o dão por certo.

A Aliança Cidadãos pela Liberdade (CXL-direita) mantém sua posição de disputar as eleições com um candidato disponível. O registro de participantes será feito entre 28 de julho e 2 de agosto.

"Neste cenário de fragilidade (Ortega) está procurando culpados, fazendo reféns com a esperança talvez de negociar e fazendo demonstrações ridículas de força", disse a líder do CXL, Kitty Monterrey, à revista digital Confidencial.

Necessidade de negociar

Para o sociólogo Oscar René Vargas, a lógica de Ortega é eliminar qualquer adversário em potencial que ponha em risco a sua reeleição.

O processo eleitoral transcorre "sob um estado de sítio de fato", disse à AFP. Segundo Vargas, a estratégia de Ortega é permitir a participação de candidatos à sua medida "para ganhar um mínimo de legitimidade".

Mas, diante da reação internacional, "poderia ser obrigado a convocar uma negociação antes da votação", avaliou Vargas, que está exilado na Costa Rica desde os protestos de 2018.

O comunicador e simpatizante do governo William Grigsby, que apresenta o programa Sin Fronteras na rádio La Primerísima, acredita que a ideia é "consertar isso [a crise] de uma vez, mas é com os gringos [Estados Unidos], com os donos do circo, não com os palhaços", em referência a uma eventual negociação.

Isolamento internacional

O Conselho Permanente da OEA aprovou com 26 votos, em 15 de junho, uma resolução de condenação à perseguição de opositores, uma votação que não tinha sido alcançada em outras sessões sobre a situação no país centro-americano, e exigiu a libertação imediata dos detidos.

México e Argentina preferiram a "não intervenção em assuntos internos". No entanto, nesta segunda os dois países chamaram a consultas seus embaixadores em Manágua ante as "preocupantes ações políticas-legais" do governo, "que têm colocado em risco a integridade e a liberdade de diversas figuras da oposição".

A ONG Human Rights Watch (HRW) pediu às Nações Unidas que aumentem a pressão para proteger os direitos humanos e assegurar eleições livres na Nicarágua. Também solicitou que o tema seja levado ao Conselho de Segurança, alegando perigo de instabilidade na região.

A Costa Rica anunciou que mantém a suspensão da nomeação de Xinia Vargas como sua embaixadora na Nicarágua, devido às "atuais condições políticas" neste país.

Para a chanceler do Panamá, Erika Mouynes, "estamos vivendo o que se viveu em algum momento quando a situação com [o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro recrudesceu" e reagiu-se com sanções.

"É pôr à prova a comunidade internacional: se usamos a mesma receita e não temos soluções concretas ou vamos encontrar alguma forma de tentar aliviar a situação (...) em benefício do povo nicaraguense, que realmente merece eleições transparentes", disse.

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