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Castillo anuncia ex-guerrilheiro como chanceler ao dar posse a seu gabinete

O presidente do Peru, Pedro Castillo, e Guido Bellido cumprimentam apoiadores durante cerimônia de posse - AFP/Presidência Peruana/Ernesto Arias
O presidente do Peru, Pedro Castillo, e Guido Bellido cumprimentam apoiadores durante cerimônia de posse Imagem: AFP/Presidência Peruana/Ernesto Arias

Em Lima (Peru)

30/07/2021 06h53

O novo presidente do Peru, Pedro Castillo, empossou ontem como seu chefe de gabinete o legislador Guido Bellido, um engenheiro sem experiência em cargos públicos, e o ex-guerrilheiro Héctor Béjar como chefe da diplomacia, um dia após sua posse em um clima polarizado.

O esquerdista Castillo ouviu o juramento durante a noite de 16 novos ministros no Grande Teatro de Lima, 11 horas depois da posse de Bellido em uma cerimônia no local da histórica batalha de Ayacucho, de 9 de dezembro de 1824, que estabeleceu a independência do Peru e do restante da América espanhola.

Em um sinal ruim para os mercados, o cargo crucial de ministro das Finanças continua vago, assim como o titular da Justiça, em um gabinete que, além do chefe de Estado, tem 18 membros.

Entre os novos ministros se destaca Béjar, advogado e doutor em Sociologia, de 85 anos, fundador em 1962 do Exército de Libertação Nacional, grupo guerrilheiro inspirado na revolução cubana, que atuou na floresta peruana até ser derrotado militarmente alguns anos depois.

Detido em 1966 e depois de passar quase cinco anos preso, Béjar foi indultado pelo governo do general Juan Velasco Alvarado, de quem passou a ser colaborador.

Apenas duas mulheres integram o gabinete. Uma é a nova vice-presidente peruana, Dina Boluarte, como ministra do Desenvolvimento e Inclusão Social.

Críticas a Bellido

Os presidentes Alberto Fernández da Argentina, Luis Arce da Bolívia e Sebastián Piñera do Chile compareceram à cerimônia na 'Pampa de la Quinua', cenário da batalha de Ayacucho. Também estava presente o ex-presidente boliviano Evo Morales.

No local da batalha reuniram-se milhares de moradores, que assistiram à posse de Bellido, de 41 anos, do mesmo partido de Castillo e que se tornou legislador pela primeira vez há seis dias.

A mídia peruana informou que o Ministério Público investigou Bellido este ano por suposta "apologia ao terrorismo", por meio de declarações em uma entrevista, antes de assumir sua cadeira no Congresso na sexta-feira, o que lhe concede imunidade.

A nomeação de Bellido "é uma mensagem que polariza", reagiu o parlamentar de extrema direita Alejandro Cavero, em declarações à rádio RPP de Lima.

Bellido deve comparecer antes de um mês ao Congresso - onde a oposição tem maioria - para pedir um voto de confiança ao novo gabinete. Se for rejeitado, Castillo terá que nomear outro primeiro-ministro e reorganizar o gabinete.

Castillo iniciou o mandato de cinco anos em um momento de esperança de milhares de compatriotas, mas também inquietação de boa parte dos peruanos que temem uma guinada para o socialismo após décadas de políticas liberais.

Em seu primeiro discurso, Castillo anunciou que enviará ao Congresso um projeto de reforma da Constituição, que favorece o liberalismo econômico e foi promulgada em 1993 pelo presidente Alberto Fujimori, o pai preso de sua adversária no segundo turno, em 6 de junho, Keiko Fujimori.

Keiko respondeu dizendo que seu partido, Força Popular, "será um muro de contenção firme em face da ameaça latente de uma nova constituição comunista.

"Vamos insistir nessa proposta, mas dentro do marco legal que a Constituição prevê. Teremos que conciliar posições com o Congresso", disse Castillo, cujo partido, Peru Livre, tem apenas 37 das 130 cadeiras. A segunda bancada é a Força Popular, com 24.

"Clima de desconfiança"

Castillo também anunciou que não dirigirá o país a partir do Palácio de Pizarro, a casa do governo, já que pretende transformá-la em museu, e prometeu que no final do mandato retomará suas "tarefas habituais de ensino", sugerindo que não pretende ficar para sempre no poder.

A proposta de conversão do Palácio também gerou polêmica e Otero avaliou que "transformá-lo em museu vai exigir uma fortuna".

O anúncio da reforma constitucional deixou os empresários preocupados, mas era uma promessa de campanha do professor rural de Cajamarca (norte).

A reforma causa "mais instabilidade" e "um clima de desconfiança", disse o chefe da organização peruana de liderança empresarial (Confiep), Óscar Caipo, à rádio RPP.

Guinada na política com a Venezuela

Castillo reiterou em sua primeira mensagem que não fará desapropriações, embora tenha esclarecido que promoverá um "novo pacto com investidores privados".

O presidente tem o desafio de reativar uma economia duramente atingida pela pandemia, que despencou 11,12% em 2020, além de acabar com as convulsões políticas que levaram o país a ter três presidentes em novembro de 2020.

Horas após a posse de Castillo, o ministro das Relações Exteriores do governo venezuelano de Nicolás Maduro, Jorge Arreaza, chegou a Lima, cuja visita marca uma virada na política externa do Peru, que em 2019 reconheceu o opositor Juan Guaidó como presidente interino venezuelano, como outros 60 países.

A Venezuela foi um tema recorrente na campanha no segundo turno, pois a candidata Fujimori afirmou que seu adversário pretendia seguir os passos de Maduro. Castillo negou ser "chavista" ou querer copiar o modelo venezuelano.

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