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1 mês

Três décadas depois, os 'escudos humanos' de Saddam Hussein exigem respostas

05/08/2021 11h48

Londres, 5 Ago 2021 (AFP) - Já se passaram mais de três décadas desde que foram usados como escudos humanos por Saddam Hussein no Iraque, mas aqueles que se viram apanhados nessa provação ainda exigem respostas.

Os passageiros que foram forçados a deixar o voo 149 da British Airways em 2 de agosto de 1990, durante uma escala no Kuwait, querem que o governo britânico admita a responsabilidade, peça desculpas e divulgue um relatório secreto sobre o que realmente aconteceu.

Um novo livro, "Operação Cavalo de Tróia", afirma que as autoridades britânicas usaram o voo para enviar nove agentes da inteligência ao Kuwait mesmo sabendo que civis corriam o risco de serem capturados.

Seu autor, Stephen Davis, garante que o avião pousou apesar de Londres ter recebido informações dos Estados Unidos anunciando a invasão do Iraque três horas e 45 minutos antes, e que a torre de controle do Iraque havia rejeitado todos os outros voos daquela noite.

Logo depois, aviões iraquianos lançaram bombas na pista de pouso, antes que tanques e soldados cercassem o aeroporto do Kuwait, cujas defesas capitularam.

Alguns dos 367 passageiros e tripulantes deste voo, com destino a Kuala Lumpur, passaram mais de quatro meses detidos.

Eles foram levados a locais no Iraque considerados possíveis alvos da coalizão militar ocidental. Um deles, Barry Manners, de 55 anos, estava viajando com sua então esposa para a Malásia.

Essa semana, Manners disse que "a conspiração do silêncio" sobre o que aconteceu destruiu sua confiança nas autoridades.

"É a antítese dos valores que aprendemos, a essência da sociedade ocidental", comentou à AFP.

Outra passageira, Margaret Hearn, de 65 anos, concorda: "Eu confiava na British Airways, mas o que aconteceu me chocou. Felizmente eu escapei, mas não foi por causa deles".

- Pensamentos niilistas -Revivendo seu tempo como refém, Manners relatou que fez amizade com seu captor, um engenheiro da represa Dukan, no norte do Iraque, mas que temia a falta de comida e que os guardas fossem obrigados a atirar nos prisioneiros.

"Você se recusa a acreditar que vai ser solto, tem essas ocorrências falsas e isso te enfraquece", comentou no lançamento do livro de Davis.

Após quatro meses de detenção, retornou a Londres, mas sofreu problemas psicológicos após a morte de sua companheira em 1992.

"Houve momentos em que pensamentos niilistas se tornaram intrusivos. Não havia alegria no mundo", comentou.

"É difícil saber quanto foi do luto e quanto foi do trauma do Iraque, foi uma combinação tóxica".

Hearn foi transferida do Kuwait para Basra, Bagdá e dois centros de detenção no deserto iraquiano durante suas cinco semanas de cativeiro.

Uma fotografia de seus dois filhos pequenos sempre a fazia chorar, lembrou, mas o tédio gradualmente substituiu o terror.

"Eu me sentia entorpecida. Você para de sentir as coisas, não consegue manter aquela intensidade de medo e preocupação", acrescentou.

Hearn contou ainda como os detidos fizeram amizade com os guardas jogando futebol ou durante as refeições. Muito diferente das "histórias de terror" de roubos, execuções simuladas e fome que, segundo Davis, foram infligidas a alguns prisioneiros.

"Éramos um presente para Saddam. Lidei com isso colocando-o em uma caixa para nunca mais olhar. Nunca mais quero ficar com tanto medo de novo", disse.

O cardiologista Richard Balasubaramian, de 49 anos, passou duas semanas detido em um hotel do Kuwait.

As autoridades da Malásia ofereceram a Balasubaramian a chance de fugir, porque parte de sua família é malaia, mas ele teve que fazer duas sufocantes viagens de ônibus de 20 horas pelo deserto até a Jordânia.

"Foi surreal, foi assustador. Nos sentimos culpados por deixar as pessoas que ficaram para trás", lembrou.

- Negação -A versão de Davis é apoiada por um ex-diplomata britânico da embaixada no Kuwait, que afirma que as autoridades contornaram os canais normais para executar o plano mal concebido de transferir pessoal de inteligência.

Um atraso de duas horas na partida do aeroporto de Heathrow em Londres, supostamente devido a um problema de ar-condicionado, permitiu que os funcionários britânicos embarcassem no último minuto.

Ele acrescentou que a então primeira-ministra Margaret Thatcher mentiu ao Parlamento e a British Airways pressionou a tripulação e os passageiros a encerrarem o assunto.

A companhia aérea britânica não respondeu ao pedido da AFP por um comentário. A empresa e o Ministério da Defesa do Reino Unido negaram as acusações de negligência, conspiração e encobrimento.

Em 2003, um tribunal francês ordenou que a British Airways pagasse 1,67 milhão de euros (US $ 2 milhões) aos reféns franceses no voo, dizendo que ela "falhou gravemente em suas obrigações" ao pousar no Kuwait.

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