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15 dias

Igreja Católica pede perdão a indígenas canadenses por abusos em internatos

24/09/2021 21h18

Ottawa, 25 Set 2021 (AFP) - A Igreja Católica do Canadá emitiu um pedido formal de desculpas aos povos indígenas após a descoberta nos últimos meses de mais de mil tumbas perto de antigos internatos, embora ativistas ainda esperem um mea culpa do papa Francisco, considerado crucial no processo de reconciliação.

"Nós, os bispos católicos do Canadá, expressamos nossos profundo remorso e oferecemos desculpas inequívocas", diz a nota publicada nesta sexta-feira (24). Os bispos também admitiram "o sofrimento vivido nos internatos" e os "graves abusos cometidos por alguns membros" da comunidade católica.

"Muitas comunidades religiosas e dioceses católicas têm servido neste sistema que levou à supressão das línguas indígenas, da cultura e da espiritualidade, sem respeitar a rica história, as tradições e a sabedoria dos povos indígenas", admitiram.

A declaração também reconhece o "trauma histórico e atual, assim como o legado de sofrimento e os desafios que continuam até o dia de hoje para os povos indígenas".

Neste verão foram encontradas mais de mil tumbas sem marcação perto dos antigos internatos católicos para crianças indígenas, lançando luz sobre uma página obscura da história canadense e sua política de assimilação forçada das Primeiras Nações.

Cerca de 150.000 crianças métis e inuítes foram recrutadas à força em 139 internatos em todo o país, afastando-as de suas famílias, sua língua e sua cultura.

Muitas foram submetidas a maus-tratos e abusos sexuais, e mais de 4.000 morreram, segundo uma comissão investigadora que qualificou a prática como um verdadeiro "genocídio cultural".

Nos últimos meses, as descobertas macabras causaram indignação e revolta no país.

Simbolicamente, a bandeira canadense na Torre da Paz em Ottawa permanece a meio mastro para prestar homenagem às crianças indígenas, depois da descoberta, no fim de maio, dos restos mortais de 215 crianças em Kamloops, na Colúmbia Britânica (oeste).

- Cura e reconciliação -A festa nacional de 1º de julho esteve marcada por comícios em todo o Canadá, que levaram milhares de pessoas às ruas, a maioria vestindo camisetas laranjas, cor associada a tributos aos antigos habitantes nativos.

Ao mesmo tempo, várias igrejas foram incendiadas ou destruídas.

Em um gesto de apaziguamento, Ottawa nomeou uma mulher inuíte como governadora-geral do Canadá - a primeira indígena a servir como representante da rainha Elizabeth II.

No entanto, muitos grupos autóctones esperam outro gesto simbólico, desta vez do papa, a quem têm pedido reiteradamente um pedido de desculpas presencial no Canadá. O papa Francisco receberá uma delegação indígena em dezembro.

"Queremos um pedido de desculpas", disse Rosanne Casimir, chefe da Primeira Nação Tk'emlups te Secwépemc no começo de junho, após anunciar a descoberta das tumbas em Kamloops.

"Será mais forte vindo da cabeça da Igreja Católica e, do nosso ponto de vista, acho que devem isso aos indígenas", afirmou David Chartrand, vice-presidente e porta-voz da Reunião Nacional dos Metís, no começo de julho.

Segundo este líder indígena, um pedido de desculpas é fundamental para iniciar um processo de cura e reconciliação, mas só será verdadeiramente efetivo se for apresentado pelo papa Francisco em solo canadense e em particular no oeste do país, onde fica a maioria dos internatos indígenas.

O primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, que fez da reconciliação com povos indígenas uma de suas prioridades, lamentou a negativa do papa e da Igreja Católica de reconhecer sua "responsabilidade" e sua "parte de culpa" na gestão dos internatos.

O pedido de desculpas chega a menos de uma semana do primeiro Dia Nacional da Verdade e da Reconciliação para as crianças desaparecidas e sobreviventes dos internatos, previsto para 30 de setembro.

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