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1 mês

Milhares se manifestam dois anos após a convulsão social no Chile

18/10/2021 21h34

Santiago, 19 Out 2021 (AFP) - Em meio a incidentes isolados com encapuzados violentos, milhares de pessoas se reuniram nesta segunda-feira (18) em várias cidades chilenas para comemorar o segundo aniversário dos protestos multitudinários por maior justiça social, que impulsionaram a redação de uma nova Constituição.

Em Santiago, milhares de pessoas caminharam rumo à Praça Itália, no centro, batizada pelos manifestantes de praça Dignidade, epicentro da convulsão social de outubro de 2019 que deixou mais de 30 mortos.

"Muitas coisas não mudaram, mas as pessoas estão mais despertas, mais dispostas a erguer a voz", disse à AFP Valentina Sagredo, estudante de psicopedagogia de 22 anos.

Pablo, um barbeiro também de 22 anos, disse à AFP que "há coisas pendentes, devemos avançar para uma nova Constituição, por isso as pessoas protestam".

Na expectativa das manifestações, a Alameda, principal avenida da capital, foi fechada. Lojas e prédios de escritórios bloquearam suas portas com cercas de metal e duas das seis linhas do metrô suspenderam seus serviços.

Como ocorreu desde a convulsão social de 18 de outubro de 2019, os manifestantes, jovens em sua maioria, repetiram palavras de ordem contra o governo direitista do presidente Sebastián Piñera, ao passar em frente ao palácio presidencial La Moneda, a dois quilômetros da Praça Itália.

Neste trajeto, grupos de encapuzados incendiaram barricadas, provocando a resposta das forças especiais da polícia, que tentou dispersá-los com bombas de gás lacrimogêneo e caminhões com jatos d'água, constataram jornalistas da AFP. Uma ótica e uma lanchonete foram saqueadas no centro de Santiago, segundo a imprensa local.

Este segundo aniversário da "convulsão social" coincide com o início da redação da nova Constituição, um processo que, em novembro de 2019, conseguiu canalizar, pela via institucional, a revolta desatada nas ruas contra um modelo considerado injusto e o desejo de uma maioria dos 19 milhões de chilenos por um "novo pacto social".

Durante os protestos, que duraram quatro meses até o aparecimento da pandemia de covid-19, em março de 2020, morreram 34 pessoas e mais de 460 sofreram lesões oculares pela ação da polícia.

A dura repressão dos protestos gerou críticas internacionais de violações dos direitos humanos contra o governo Piñera.

O aumento do preço das passagens do metrô de Santiago foi o estopim das primeiras manifestações estudantis em 18 de outubro de 2019, mas a reivindicação se estendeu rapidamente contra todo o modelo econômico chileno, criticado por favorecer uma elite, e um Estado ausente em temas sociais, como educação, saúde e pensões, herdado da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).

Um cartaz pendurado nesta segunda-feira em uma passarela próxima ao edifício Costanera Center, o maior arranha-céus da América do Sul, dizia: "O único caminho é o exemplo de outubro".

- Nas ruas -As manifestações desta segunda-feira comemoram o que parte da população considera o grande despertar dos cidadãos, após 30 anos de uma democracia que trouxe progresso macroeconômico, mas sem garantias sociais.

Embora as autoridades tenham retirado sinais de trânsito e latas de lixo perto da Praça Itália para evitar que fossem destruídos, um grupo de encapuzados armados com paus deixou destroços nos arredores.

Pelo menos 5.000 agentes da polícia foram mobilizados em todo o Chile para enfrentar os protestos, convocados também na cidade portuária de Valparaíso (centro), onde fileiras de manifestantes marcharam rumo ao prédio do Congresso Nacional. Em Antofagasta (norte) e nas cidades do sul Concepción, Chillán e Punta Arenas foram registrados protestos com palavras de ordem contra o governo de Piñera.

- Nova Constituição -A Constituição atual será substituída, se todos os chilenos a ratificarem em um plebiscito no ano que vem, por uma Carta Magna atualmente em debate pela Convenção Constitucional, de 155 membros, a primeira do mundo a ser paritária e com 17 assentos reservados para os povos originários.

Nesta segunda, a Convenção começou a tratar de temas de fundo, que serão incorporados aos artigos da nova Carta Magna, depois de mais de 100 dias dedicados a fixar seus regulamentos internos.

"Hoje, esta convenção, que é filha dos desejos e da mobilização dos povos, começa um diálogo esperado por décadas, séculos talvez", disse a acadêmica mapuche Elisa Loncon, presidente da Convenção Constituinte.

O aniversário da convulsão social ocorre em meio à campanha para as eleições de 21 de novembro, nas quais será eleito o sucessor de Piñera e o Congresso será renovado.

O novo presidente deve assumir o cargo em 11 de março do ano que vem.

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