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1 mês

Cotidiano vira um pesadelo para os haitianos, impotentes diante das gangues

27/10/2021 21h34

Porto Príncipe, 28 Out 2021 (AFP) - Desesperançados diante do caos político que prevalece há meses, os haitianos enfrentam desde o início da semana uma degradação acelerada de suas condições de vida por causa das gangues que controlam o acesso aos terminais petroleiros.

"Estamos (...) racionando a água na minha casa", relata, assustada, Daphné Bourgoin, de 42 anos. "E para os meus filhos, que têm aulas online, até quando vai durar a internet?", pergunta esta gerente de uma empresa têxtil, obrigada a fechar desde a segunda-feira.

Este país caribenho nunca produziu energia elétrica suficiente para atender à demanda do conjunto da sua população e, mesmo nos bairros mais abastados de Porto Príncipe, a empresa pública de eletricidade só assegura o abastecimento máximo durante poucas horas por dia.

Os que podem, compram geradores: equipamentos caros, hoje inúteis devido à grave escassez de combustível provocada por gangues armadas.

- Falta de eletricidade e de água -A falta de diesel impede também as empresas privadas de assegurarem a entrega de água em caminhões-pipa.

Assim como no caso da energia elétrica, os haitianos construíram em suas casas sistemas autônomos para garantir o abastecimento de água, já que a rede de tubulações não cobre o conjunto da região metropolitana.

Sem nenhum abastecimento privilegiado, as instituições hospitalares são forçadas a reduzir drasticamente sua atividade.

"Não há eletricidade no hospital para fazer funcionar os aparelhos, não há combustível, não há nada", diz em crioulo Rachilde Joseph, estudante de medicina em Porto Príncipe.

Esta mulher de 26 anos, que ficou conhecida por publicar vídeos humorísticos nas redes sociais, hoje não tem vontade de rir.

"Gostaríamos de ficar no país para oferecer cuidados, sobretudo às pessoas do interior que precisam tanto, mas o país não nos dá essa oportunidade", lamenta, antes de acrescentar que o Haiti "vai acabar, finalmente, perdendo todos os seus jovens".

Enfrentando um desemprego maciço, milhares de jovens haitianos começaram a emigrar para a América Latina em 2014.

Dezenas de milhares deles atravessaram o continente nos últimos meses, na expectativa de se instalar nos Estados Unidos, acreditando, equivocadamente, poder se beneficiar de uma política migratória mais benevolente por parte do governo de Joe Biden.

Mas cerca de 7.500 deles, concentrados no começo de setembro debaixo de uma ponte na fronteira entre o México e o Texas, acabaram sendo expulsos para o Haiti pelos serviços migratórios americanos.

Esta onda de expulsões em massa preocupou organizações humanitárias sobre seu possível retorno a um país mergulhado na incerteza após o assassinato do presidente Jovenel Moise por um comando armado em 7 de julho.

- "Estado falido" -Ariel Henry, nomeado primeiro-ministro dois dias antes do assassinato, chefia hoje o país em caráter interino, mas se mantém em silêncio diante do empoderamento das gangues em Porto Príncipe, que paralisa toda a atividade e impede o abastecimento seguro de combustível.

"O governo, que só existe no papel, não controla nada, nem mesmo o perímetro de seus edifícios", diz à AFP o economista haitiano Etzer Emile, para quem "a crise de combustível é o último exemplo de um Estado falido".

"Como se a inflação descontrolada, a alta contínua do dólar (sobre a 'gourde', moeda local), a insegurança alimentar, a fuga de cérebros, o sequestro não fossem o bastante, precisávamos de uma grave escassez de combustível e um governo fantasma repleto de comediantes e despreocupados", afirma.

As gangues cometeram mais de 782 extorsões mediante sequestro desde o começo do ano, segundo o Centro de Análise de Pesquisas em Direitos Humanos, que tem base em Porto Príncipe.

Um dos grupos armados mais poderosos do país pede 17 milhões de dólares para liberar um grupo de missionários e suas famílias - 16 americanos e um canadense -, sequestrados em 16 de outubro no leste da capital.

"Os donos do nosso destino e os que decidem sobre a nossa vida já não estão no Palácio Nacional, como foi o caso durante a ditadura Duvalier: agora são as gangues armadas", resume Etzer Emile, preocupado com o que chama de "somalização à haitiana", em alusão ao país africano, presa de milícias armadas.

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