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1 mês

Como a Finlândia deu aulas secretas a crianças do EI detidas na Síria

Criança iraquiana que fugiu do Estado Islâmico em Mossul observa da cerca do campo de refugiados Khazer, no Iraque - Ahmed Jadallah/ Reuters
Criança iraquiana que fugiu do Estado Islâmico em Mossul observa da cerca do campo de refugiados Khazer, no Iraque Imagem: Ahmed Jadallah/ Reuters

29/11/2021 09h35Atualizada em 29/11/2021 10h56

Em sua casa na periferia de Helsinque, Ilona Taimela relê as centenas de mensagens trocadas por mais de um ano com seus alunos na Síria, filhos finlandeses de membros da organização terrorista Estado Islâmico (EI).

No ano passado, essa professora foi convidada a ensinar secretamente, por meio do serviço dos Correios, essas crianças detidas no campo sírio de Al-Hol e protegidas por forças curdas.

"Algumas dessas crianças não sabiam o que era um prédio, o que era uma casa, porque sempre estiveram em uma barraca", conta a finlandesa à AFP.

O campo de Al-Hol, superlotado, sem higiene e palco de violência, é o lar de mais de 60.000 deslocados, um terço dos quais são filhos de mães estrangeiras que vieram para a Síria para se casar com combatentes do EI.

"É um lugar miserável, fora de controle", explica Jussi Tanner, enviado especial da Finlândia e responsável por garantir os direitos fundamentais das crianças finlandesas em Al-Hol, especialmente o acesso à educação.

A propaganda extremista "circula livremente, sem que haja mensagem alternativa", garante.

Então, Tanner teve a ideia de propor aulas de finlandês por telefone para crianças finlandesas em Al-Hol, em um momento em que o ensino à distância se espalhava com a pandemia covid-19.

Com a ajuda de uma fundação em seu país, ele contratou Taimela, que se especializou no ensino de crianças finlandesas no exterior, e outra professora, que desenvolveu o programa e depois passou os detalhes para as mães.

Embora os telefones sejam proibidos no campo - as aulas são ministradas em segredo - "no mesmo dia tivemos oito filhos", diz Taimela.

Rapidamente, 23 nomes - de um total de cerca de 30 crianças finlandesas na área - acabaram se inscrevendo.

O projeto, muito delicado na Finlândia, foi escondido da opinião pública por meses.

Centenas de mensagens

"Bom dia! Hoje é quinta-feira, 7 de maio. Primeiro dia de aula a distância!", escreveu Ilona Taimela na época, em mensagem acompanhada de uma selfie.

Rapidamente, as professoras passaram a trocar centenas de mensagens escritas e vocais todos os dias com as crianças, que recebiam uma ou duas aulas diárias dependendo do nível.

"Os mais novos sempre tinham finlandês e os mais velhos geografia ou história e alguns queriam aprender inglês", explica Taimela.

Ela e sua colega, que pediu anonimato, estavam "constantemente preocupadas com o bem-estar" das crianças, "especialmente quando sabíamos que estavam doentes ou que havia uma tempestade".

Algumas famílias "fugiram do acampamento e participaram das aulas foragidas no noroeste da Síria, uma zona de conflito ativa", relata Tanner.

"Outras foram repatriadas e deixaram definitivamente o grupo", quando a Finlândia decidiu trazê-las de volta, o que gerou um intenso debate no país.

Após vários meses de escolaridade, a mãe de uma menina de seis anos revelou à professora que sua filha já sabia ler. "Foi um momento 'eureka'", diz Taimela.

Para essa professora, que afirma sentir mais tristeza do que raiva dessas mães, muitas delas eram vulneráveis e "a religião lhes prometia uma espécie de paraíso".

Embora Ilona Taimela tenha imaginado que nunca mais ouviria falar das crianças repatriadas, em julho de 2020 foi chamada a um centro de acolhimento na Finlândia.

Lá conheceu alguns de seus alunos pela primeira vez. "Foram algumas horas de muita emoção", lembra.

O Ministério das Relações Exteriores da Finlândia já repatriou 23 menores e sete adultos.

De acordo com Tanner, apenas cerca de 15 pessoas - incluindo dez crianças - permanecem, difíceis de localizar, nos campos da Síria.

Em meados de 2021, esse ensino a distância foi encerrado por falta de alunos, e o projeto foi divulgado.

Ilona Taimela quer agora saber como pode utilizar este modelo noutras regiões em crise.

Já recebeu demandas da Grécia, Mianmar e Colômbia.

"Professora de Al-Hol, essa é o crachá que vou usar de agora em diante", diz, com um sorriso. "Tenho orgulho do que fizemos."

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