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Irlanda do Norte recorda os 50 anos do 'Domingo Sangrento'

27/01/2022 07h56

Londonderry, Reino Unido, 27 Jan 2022 (AFP) - Meio século depois do "Bloody Sunday", a Irlanda do Norte recorda no domingo (30), em um momento de tensão, um dos episódios mais violentos do conflito que opôs durante três décadas republicanos católicos e unionistas protestantes nesta região britânica.

Para John Kelly, cujo irmão Michael foi morto pelos tiros de um soldado britânico durante a manifestação de 30 de janeiro de 1972 em Derry, como os republicanos preferem chamar a cidade de Londonderry, o aniversário do "Domingo Sangrento" representa "um momento importante no caminho que percorremos durante todos estes anos".

Na manhã de domingo, ele vai caminhar como seu irmão fez em 1972, antes de ser morto aos 17 anos. Naquele dia, os soldados britânicos abriram fogo contra uma passeata católica pacífica e mataram 13 pessoas. Uma 14ª vítima faleceu alguns meses depois.

Michael era um adolescente "tranquilo, cheio de vida e piadista", que respeitava os pais. Ele pediu autorização para comparecer à manifestação a favor dos direitos civis dos católicos, explica John Kelly, que trabalha no museu Free Derry.

Também adorava chocolate. Sua mãe comprou uma barra da marca Mars para o filho no dia e John guarda o produto como um tesouro deste então.

O episódio, imortalizado pelo U2 na canção "Sunday Bloody Sunday", continua sendo um dos mais dramáticos do conflito que, até o acordo de paz de 1998, provocou vários confrontos entre os republicanos partidários da reunificação com a vizinha República da Irlanda e os unionistas que defendem a permanência na coroa britânica, com o envolvimento do exército do Reino Unido.

Na época, o exército britânico alegou que os paraquedistas responderam aos tiros dos "terroristas" do IRA (Exército Republicano Irlandês).

Apesar de todos os depoimentos que contradiziam esta versão, apenas em 2010 foi reconhecida oficialmente a inocência das vítimas: algumas foram baleadas nas costas ou quando estavam deitadas no chão, quando acenavam com um lenço branco.

- Nos braços do IRA -"Estou tão orgulhosa por termos chegado aqui", disse Kate Nash, cujo irmão William morreu naquele dia, aos 19 anos, após décadas de "distorções, mentiras e atrasao".

Para Denis Bradley, testemunha do massacre e padre na época, o "Domingo Sangrento" representou a morte do movimento pelos direitos civis e jogou muitos jovens católicos nos braços do IRA.

Este foi o caminho seguido por Tony Doherty. Ele tinha nove anos quando seu pai foi atingido por um tiro nas costas disparado por um soldado britânico.

"O massacre foi completamente injustificável, o processo judicial depois acrescentou distorção à tragédia e teve um efeito de longo prazo em pessoas como eu, que cresciam em Derry na época", disse à AFP.

A revolta da criança e depois do adolescente levaram Doherty a colocar uma bomba poucos anos mais tarde. O artefato não explodiu e o então jovem de 18 anos foi detido e passou quatro anos na prisão, de 1981 a 1985.

"Poderia ter sido muito pior", afirma. "Pessoas poderiam ter sido mortas ou feridas".

- "Esta ilha é muito pequena" -No último ano, os efeitos do Brexit evidenciaram o frágil equilíbrio do acordo de paz de 1998.

Os controversos dispositivos alfandegários, que para evitar uma nova fronteira terrestre com a República da Irlanda - inaceitável para os republicanos - impõem barreiras administrativas entre a região e o restante do Reino Unido - o que irrita os unionistas - voltaram a se objeto de intensas negociações entre Londres e Bruxelas.

Em 2021, as tensões aumentaram novamente e provocaram violentos distúrbios, com incêndios nos "muros da paz" que separavam os bairros católicos dos protestantes.

Em Bogside, os murais em cada esquina lembram o passado doloroso que as famílias das vítimas contam aos visitantes dia após dia.

No museu, John Kelly começa a visita com uma bala de calibre 7,62 entre os dedos, como a que matou seu irmão, diante de um grupo de jovens.

Do lado de fora, no local em que seu pai recebeu um tiro na cabeça, pelas costas, Paul Doherty - irmão de Tony - fala com os visitantes sobre o "Domingo Sangrento" para que conheçam a "história real, dos afetados diretamente pelo massacre".

Quanto ao futuro, os parentes das vítimas desejam uma Irlanda pacífica e unificada. "Espero ver, esta ilha é muito pequena para estar dividida", afirma John Kelly.

spe/acc/zm/fp