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Protestos contra novo governo do Peru podem voltar em janeiro

29/12/2022 12h31

Os protestos no Peru, que reivindicam a renúncia do atual governo após a destituição do presidente Pedro Castillo podem ser retomados em janeiro, enquanto a nova governante, Dina Boluarte, pede aos partidos, seus militantes e os sindicatos "reflexão" e "diálogo".

Boluarte, que era vice-presidente, assumiu o governo do Peru depois que o esquerdista Castillo tentou fechar o Congresso, em 7 de dezembro, mas não teve apoio institucional e foi detido por suposta incitação à rebelião popular.

Sua queda gerou violentos protestos nas duas semanas seguintes, que deixaram 22 mortos e mais de 600 feridos em confrontos de seus simpatizantes com as forças de segurança.

Essas manifestações, principalmente nas áreas rurais do sul do Peru, diminuíram no final de dezembro após intervenção militar e com as festas de final de ano, mas podem ser reativadas.

"Temos informações de que, possivelmente, a partir de 4 de janeiro do ano que vem, voltaremos a ter conflitos sociais, muito particularmente na região sul", disse o ministro do Interior, Víctor Rojas, em entrevista coletiva aos correspondentes estrangeiros em Lima.

Rojas afirmou que viajará a Arequipa (sul), Cusco e Puno (sudeste) "para estabelecer e corroborar as informações e preparar os serviços policiais".

Ele acrescentou que a ação policial não será "de repressão, mas sim para proteger o patrimônio e a livre circulação".

A presidente Boluarte, que conduziu a coletiva de imprensa, argumentou com os manifestantes: "apesar de os protestos serem pacíficos, geram prejuízos para o Estado, (...) com essa receita podemos resolver problemas de saúde, água, drenagem, rodovias (...) Os convido à reflexão."

"Sei que com razão reivindicam o que não foi atendido. Que suas reivindicações sociais são justas e nós não nos negamos a atendê-los. Vamos sentar à mesa, marcar uma data na agenda e começar a trabalhar", acrescentou.

Sindicatos das regiões de Cusco, Puno, Apurímac, Moquegua, Madre de Dios, Ayacucho e Arequipa, todas no sul e onde Castillo conta com grande apoio, já anunciaram que voltarão às ruas, sem especificar uma data.

- "Não pedi essas mortes" -

Os manifestantes pedem a renúncia de Boluarte, o fechamento do Congresso e a antecipação das eleições para 2023. Na tentativa de mitigar a crise, o Congresso aprovou há uma semana a mudança das eleições gerais de 2026 para abril de 2024.

A declaração do estado de emergência permitiu aos militares participar da contenção das manifestações. A Defensoria do Povo solicitou uma investigação sobre a morte de vários manifestantes por tiros à queima-roupa.

"Quando tomei posse, não pensei que haveria tamanha violência. Não foi fácil para nós tomarmos a decisão de declarar o estado de emergência (...) A violência e os falecidos me doem na alma, não pedi essas mortes", disse Boluarte.

O chefe do Conselho de Ministros, Alberto Otárola, informou que a investigação das mortes será feita em foro comum e reiterou que não haverá "impunidade".

O ministro da Defesa, Jorge Chávez, informou o envio de militares em apoio à Polícia nos locais para onde foram anunciadas manifestações e disse que "todas as ações estão sendo tomadas para que acontecimentos que vão contra as normas de uso da força não aconteçam novamente".

O Ministério Público informou nesta quinta-feira que "até o momento iniciou sete investigações preliminares sobre as mortes de cidadãos ocorridas durante os atos de protesto".

Castillo justificou sua tentativa de golpe na obstrução exercida pelo Congresso ao exercício de suas funções e denunciou tratamentos racistas.

No entanto, Castillo não teve apoio institucional e foi destituído pelo Congresso e preso para ser investigado por rebelião.

- Relações com o México -

Castillo foi preso horas depois de sua tentativa de golpe, quando tentava chegar à embaixada do México para pedir asilo.

Dias depois, o governo mexicano, chefiado pelo esquerdista Andrés Manuel López Obrador, concedeu asilo a sua esposa e filhos, e manifestou seu apoio a Castillo, a quem considera uma "vítima das elites" no Peru.

Diante disso, a chancelaria peruana pediu ao embaixador mexicano que se retirasse do país. Também convocou para consultas seus embaixadores no México, Colômbia, Bolívia e Argentina, cujos governos também apoiaram Castillo.

Apesar disso, "continuamos mantendo relações diplomáticas com o México (...) Através de nossa chancelaria estamos trabalhando intensamente para poder reintegrar nossos embaixadores solicitados", explicou Boluarte.

O Peru é membro da Aliança do Pacífico junto com Chile, Colômbia e México, um bloco comercial que responde por 38% do PIB da região.

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© Agence France-Presse