Justiça colombiana liberta ex-chefe paramilitar Salvatore Mancuso

O ítalo-colombiano Salvatore Mancuso, o ex-líder paramilitar mais poderoso ainda vivo da Colômbia, foi libertado da prisão nesta quarta-feira (10) por uma decisão da justiça, que lhe concedeu liberdade após sua deportação em fevereiro dos Estados Unidos para a Colômbia.

Mancuso deixou a prisão de La Picota, no sul de Bogotá, em um comboio de veículos blindados, conforme constatado por um fotógrafo da AFP.

Horas antes, a autoridade carcerária informou que, após consultar vários tribunais, não encontrou motivos para mantê-lo preso.

"O senhor Salvatore Mancuso será libertado", afirmou o coronel Rolando Ramírez, diretor interino do Instituto Nacional Penitenciário e Carcerário (Inpec), em um vídeo enviado à imprensa.

Sua defesa denunciou na segunda-feira um plano para assassiná-lo, com a cumplicidade de guardas do órgão penitenciário.

"Por questões de segurança, não é conveniente atender jornalistas em La Picota", indicou sua defesa aos meios de comunicação por meio de uma mensagem no WhatsApp.

O ex-comandante das Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC) - os violentos exércitos que confrontaram as guerrilhas nos anos 90 e início dos anos 2000 - antecipou revelações sobre os vínculos entre essa organização e as elites políticas e econômicas da Colômbia.

Mancuso, de 59 anos, foi deportado dos Estados Unidos para Bogotá em fevereiro. Desde então, seu caso se tornou juridicamente complicado, pois o ex-paramilitar tinha pendências com a justiça comum e com um tribunal especial ao qual aderiu quando se desmobilizou em 2006, como parte de um processo de paz com o então presidente Álvaro Uribe (2002-2010).

Os advogados argumentavam que os 16 anos que Mancuso passou na prisão nos Estados Unidos por tráfico de drogas eram suficientes para cumprir o tempo máximo de prisão estipulado no acordo, que era de oito.

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Durante o conflito interno, seus homens assassinaram centenas de guerrilheiros ou civis suspeitos de simpatizar com a insurgência ou com a esquerda.

- Mediador do governo -

Mancuso também atuará como "gestor de paz", segundo seus advogados, uma figura que o presidente Gustavo Petro deseja vincular ao governo para negociar a desmobilização de grupos do narcotráfico.

Ao chegar à capital colombiana vindo do estado americano da Geórgia, Mancuso permaneceu na prisão de La Picota sob forte custódia.

O ítalo-colombiano é considerado um alvo de alto valor, pois foi o segundo no comando das AUC, abaixo dos irmãos Carlos e Fidel Castaño, presumidamente mortos.

Seu retorno ao país repercutiu na política. O ex-paramilitar considera que Uribe o traiu ao extraditá-lo em 2008, assim como outros líderes paramilitares.

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O ex-presidente de direita alegava que os ex-paramilitares continuavam traficando cocaína depois da desmobilização. Uribe afirma que Mancuso deseja se vingar vinculando seu nome a crimes.

- Verdade pendente -

O ex-líder das AUC voltou a ter visibilidade com a chegada ao poder em agosto de 2022 de Petro, o primeiro esquerdista na presidência da Colômbia, que propôs que o ex-paramilitar trabalhasse em seu governo.

Mesmo antes de a justiça conceder sua liberdade, Petro insinuou que pediria a Mancuso para mediar com o Clã do Golfo, maior cartel da Colômbia e com o qual o governo não conseguiu estabelecer negociações.

E também com as Autodefesas Conquistadoras da Sierra Nevada de Santa Marta (ACSN), de origem paramilitar, com as quais o governo teve aproximações, mas ainda não iniciou formalmente os diálogos.

Ainda não está claro como "El Mono", pseudônimo pelo qual era conhecido, responderá às vítimas que exigem saber o que aconteceu com seus familiares assassinados ou o destino de milhares de desaparecidos.

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O acordo de paz de 2006 estabelecia que os paramilitares cumpririam no máximo oito anos de prisão se contassem a verdade e reparassem aqueles que prejudicaram. A decisão de Uribe de extraditá-los foi criticada pelas vítimas, pois arruinava esse processo, que continua sendo uma pendência de Mancuso.

Antes de voltar à Colômbia, ele se comprometeu a ajudar na busca por pessoas assassinadas por paramilitares e enterradas em valas comuns na fronteira com a Venezuela.

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© Agence France-Presse

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