Sem local marcado, blocos não oficiais do Rio conquistam foliões pela madrugada

 

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Um carnaval misterioso, pelas madrugadas, sem horário marcado ou trajeto definido. Apesar da agenda de mais de 500 blocos autorizados pela prefeitura, o carnaval carioca de 2016 também teve espaço para os blocos não oficiais. Durante a festa, esses blocos vêm desafiando a organização dos foliões, com desfiles marcados em cima da hora, por bairros do centro e zona sul do Rio de Janeiro, de forma espontânea, com revezamento de músicos e energia que chega a durar até 22 horas.

O recorde é do Bloco Boi Tolo, que saiu domingo (7), às 7h da Igreja da Candelária. Há 11 anos, o bloco faz desfiles que passam de 12 horas, andando pela cidade. Desta vez, se superaram. Cruzaram a região portuária, o centro, o Aterro do Flamengo, o bairro das Laranjeiras até Botafogo. "O estandarte deixou o bloco às 5h", disse um dos organizadores, Luis Otávio Almeida. "Teve gente que saiu, foi almoçar, descansar um pouquinho e retornou". A estimativa do organizador é de que milhares de pessoas tenham seguido o Boi Tolo em algum momento do dia.

A ideia de fazer os desfiles sem registro na prefeitura e com divulgação na última hora, para uma rede de amigos dos próprios músicos, que, em geral, ajudam a espalhar a notícia, é uma forma de resgatar a espontaneidade do carnaval e evitar multidões. Para Luis Otávio, o carnaval de rua está cada vez mais mercantilizado, por conta do patrocínio de empresas e cervejarias, se transformando em uma festa comercial a céu aberto e esse modelo precisa mudar.

"Temos o direito de ocupar a rua com nossa cultura. Nós [o bloco] não temos estrutura privada, pelo contrário, defendemos que carros de som, cada vez maiores, não tem nada a ver com carnaval de rua. O carnaval é do povo, de seus instrumentos, com suas vozes, sua liberdade criativa fazendo festa", argumenta. A clandestinidade, na avaliação dele, ajuda a tornar a folia mais sustentável, limitando naturalmente o tamanho do público e o impacto na vizinhança.

Aproveitando a escuridão da noite para brilhar, o Bloco Minha Luz é de Led desafia os foliões a adaptar a fantasia com as luzinhas que piscam. No terceiro ano de desfile sem autorização, na última sexta-feira (5), reuniu o dobro do público de 2015. Com um público majoritariamente de LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros ), a integrante do bloco Julia Jacobina acrescenta que a clandestinidade ajuda ainda a proteger foliões de violência.

"Quando você regulariza, a prefeitura acaba impondo o trajeto, obriga a ter patrocínio da Ambev, impede que os ambulantes vendam cervejas que não sejam as desta cervejaria, obriga a divulgação em veículos de mídia e nós não queremos isso. Até porque não desejamos atrair pessoas fora de nossa sintonia e que possam ser agressivas com os frequentadores", explicou Julia.

Desfiles secretos

Os foliões cariocas vibram nos desfiles secretos e encaram o desafio. Na madrugada de hoje (9), um desfile marcado pelo Bloco Amigos da Onça às 4h30 arrastou multidão por uma parte do centro histórico, próximo a Praça Tiradentes. A folia só terminou com sol forte.

A jornalista Gabriela Voskelis acompanhou o Amigos, mesmo depois de uma maratona de mais de 8 horas no Boi Tolo, na noite anterior. Ela concorda que a liberdade de repertórios, a autenticidade de performances e a possibilidade de brincar o carnaval sem regras fizeram com que ela optasse somente por esses blocos. "O carnaval flui como tem que fluir. Carnaval com regras pré-definidas, com hora para começar ou para acabar não é carnaval, é simplesmente uma festa planejada".

Os foliões concordam que a falta de divulgação causa apreensão. Mas quem deixa a agenda aberta para convites imprevisíveis que são feitos, muitas vezes, com pouca antecedência, garante que não se arrepende. É a opinião da economista Paula Vieira. Ela acompanhou no sábado (6), de dia, outro bloco sem regras, Os biquínis de Ogodô convidam as sungas Odara, pelas ruas de Santa Teresa, com ruas bem mais vazia do que nas passagens dos tradicionais blocos Carmelitas e Céu na Terra.

"Foram dois momentos memoráveis: passar em frente a um asilo, uma casa de repouso para idosos e parar lá, dançar com as velhinhas durante o trajeto até a Lapa e, o outro, foi o momento que os moradores jogaram água de mangueira na gente. Eu não esperava que interagissem e foi muito refrescante no fim da tarde", contou.

Carnaval deve entrar por mais uma madrugada

No fim da tarde de hoje (9), sai mais um dos blocos não oficiais mais esperados. Com direito a samba próprio, criticando a mercantilização do carnaval, defendendo a folia gratuita e homenageando o carnavalesco Joãozinho Trinta, o Secreto só divulga o local em sua rede informal.

*Colaborou Tâmara Freire, repórter do radiojornalismo

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