Em Belo Horizonte, mostra busca aumentar visibilidade da mulher na literatura

Um dos cartazes mostra poema da mineira Yeda Prates Bernis

Cartaz  mostra  poema  da  mineira  Yeda  Prates  Bernis,  uma  das  homenageadas Léo  Rodrigues/Agência  Brasil

Com o objetivo de divulgar e valorizar a contribuição da mulher para a literatura nacional, o Centro Cultural Liberalino Alves de Oliveira promove, ao longo deste mês, em Belo Horizonte, a exposição Mulheres na Poesia Brasileira. A exposição apresenta cartazes com trechos de obras de importantes autoras brasileiras, entre as quais Adélia Prado, Laís Corrêa de Araújo, Maria Esther Maciel, Hilda Hilst e Yeda Prates Bernis.

Segundo o escritor Sério Fantini, um dos organizadores da mostra, o centro cultural dispõe de obras das autoras e o público está convidado a ler os poemas no local. Para Fantini, o contato com as obras pode levar outras mulheres a se aventurarem na literatura. "Que elas possam se sentir representadas nas palavras dessas autoras. Às vezes, a pessoa não tem muita intimidade com a poesia, mas lê um cartaz, gosta e resolver buscar um livro da poetisa", disse o escritor.

Com entrada franca, a mostra pode ser visitada de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h. Outras atividades relacionadas à poesia serão realizadas no local. Nesta quarta-feira (9), por exemplo, está previsto para as 10h, um sarau com leitura de poemas de Adélia Prado. As pessoas também serão estimuladas a falar sobre os sentimentos e lembranças despertados a partir pelos poemas lidos. "A ideia é propiciar um intervalo nessa correria do dia a dia e permitir reflexões", expliocu Fantini.

Mulheres leem mais

Desde 2001, o Instituto Pró-Livro realiza periodicamente pesquisas sobre o panorama da leitura no país. O último estudo, de 2012, revela que, entre as pessoas entrevistadas que leram pelo menos um livro nos três meses anteriores à pesquisa, 43% eram homens e 57%, mulheres. Conforme o estudo, elas leem mais, mas são menos lidas.

No Brasil, são poucas as pesquisas sobre a participação da mulher no mercado editorial. A pesquisadora Regina Dalcastagnè, da Universidade de Brasília (UnB), que monitora a publicação de romances no país, adiantou à Agência Brasil alguns números do próximo levantamento, que abrange o período de 2005 a 2014, cujos dados ainda estão sendo organizados.

Nesse período, apenas 29,4% dos romancistas são do sexo feminino. "Houve um aumento, já que, nos anos 70, tínhamos apenas 17,4% de romancistas mulheres", disse Regina. A pesquisadora ressaltou que as mulheres ainda não representam 30% em nenhum segmento do mercado literário.

É o terceiro período estudado pela pesquisadora, que já avaliou a produção literária de 1965 a 1979 e de 1990 a 2004. Em cada um dos períodos, Regina analisou os romances publicados pelas editoras mais citadas por especialistas. Em 692 obras de 383 autores, a disparidade entre personagens masculinos e femininos chamou a atenção: cerca de 60% dos personagens encontrados eram do sexo masculino. "Na imensa maioria das vezes, os homens são também protagonistas."

Regina destaca o fato de mulheres terem sido premiadas, de uns tempos para cá, nos principais eventos literários, que antes eram dominados por autores masculinos. No entanto, o preconceito ainda é muito forte, afirmou a pesquisadora. "Existe, muitas vezes, a ideia que mulheres só escrevem coisas de mulheres, enquanto tudo que os homens escrevem é considerado universal. Isso é complicado, porque as mulheres são maiorias nos cursos de letras."

A pesquisadora  tem a impressão de que as mulheres são também maioria entre os acadêmicos que pesquisam e publicam sobre literatura. "Então precisamos intervir. Se deixar correr solto, o panorama não muda. E há muitas escritoras de potencial, inclusive escritoras negras, que são ainda mais prejudicadas. O negro também praticamente inexiste em nosso mercado literário", enfatizou.

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