Demanda de municípios vizinhos pressiona maternidades de Fortaleza, diz estudo

Muitas grávidas que vivem nos municípios da Região Metropolitana de Fortaleza acabam procurando a capital para dar à luz seus bebês. Em 2014, mais de 60% de todas as gestantes dos municípios vizinhos saíram de suas cidades para parir em hospitais de Fortaleza, segundo estudo do Comitê Estadual de Prevenção ao Óbito Materno, Infantil e Fetal, apresentado hoje (6).

O comitê fez um diagnóstico de cada município da região metropolitana da capital cearense com relação à quantidade de nascimentos. Em Itaitinga, por exemplo, somente 6% das grávidas da cidade tiveram seus bebês na maternidade local, enquanto 83% delas foram para Fortaleza. Esse deslocamento influencia diretamente na capacidade dos hospitais da capital. Cinco das principais unidades da cidade operam acima de 100% de sua capacidade.

A falta de confiança na saúde dos municípios é um fator que influencia as mães a buscarem atendimento na capital. "O relatório mostra que existe uma demanda espontânea, por tradição, em função das próprias condições de cada município. Boa parte das cidades tem pouca resolutividade de seus partos e eles acontecem aqui em Fortaleza porque as mulheres sentem necessidade de vir e acabam superlotando a estrutura da cidade", disse a presidenta do comitê, Liduina Rocha.

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Em 2014, mais de 60% das grávidas dos municípios vizinhos de Fortaleza saíram de suas cidades para parir em hospitais da capitalArquivo/Marcelo Camargo/Agência Brasil

Apesar de ser considerado polo de atenção, o Hospital Santa Terezinha, em Caucaia, realizou apenas 35% de todos os partos de mulheres residentes na cidade em 2014. A unidade assumiu a responsabilidade de realizar partos de risco habitual e de alto risco abrangendo em oito municípios vizinhos, mas não consegue dar conta da demanda.

A secretária-executiva da Saúde de Caucaia, Cynthia Aguiar, disse que o hospital teve problemas com os obstetras, que se recusaram a cumprir parecer do Conselho Regional de Medicina do Ceará, que determina a presença de dois obstetras nas escalas de plantão de hospitais que realizem partos normais e cesáreas.

"Alguns profissionais estavam se negando a admitir as parturientes, fazendo com que o serviço do hospital, aos poucos, fosse entrando em descrédito. Soubemos que as pacientes nem chegavam a ser admitidas. Da recepção mesmo voltavam e iam à procura de outros serviços, sem que houvesse uma avaliação inicial delas." Segundo Cynthia, a situação foi contornada em janeiro deste ano e a administração do hospital se comprometeu a completar as escalas.

Com base nesse diagnóstico, o comitê pretende propor mudanças na rede de atendimento para fortalecer os hospitais locais e evitar o deslocamento das grávidas para Fortaleza. "Em municípios onde ocorrem poucos partos, vale a pena montar uma estrutura ou será que é melhor investir em um bom pré-natal e realizar acordos para que os partos ocorram em um município próximo?", comentou Liduína.

Cesáreas

O estudo do Comitê Estadual de Prevenção ao Óbito Materno, Infantil e Fetal foi realizado após recomendação da Promotoria de Defesa da Saúde Pública do Ministério Público do Ceará (MP-CE), em função do agravamento da crise no sistema de atenção à saúde do estado. Além da superlotação da infraestrutura da rede de atenção obstétrica de Fortaleza, o diagnóstico do comitê também revela a prevalência das cesáreas em detrimento dos partos normais nas grávidas oriundas das cidades da região metropolitana.

Das mulheres de São Gonçalo do Amarante que pariram em Fortaleza, por exemplo, 68% foram atendidas em hospitais de atenção secundária (média complexidade). Dessas, 93% passaram por cesáreas. Caso tivessem sido atendidas na cidade de origem, salvo situações mais complexas, essas mulheres talvez tivessem tido partos normais. O município tem uma taxa de 91% de partos normais entre todos os nascimentos registrados no hospital local.

Para Liduína, os dados das mulheres que dão à luz em Fortaleza refletem uma cultura dde cesariana estabelecida principalmente em hospitais privados e nos conveniados com o Sistema Único de Saúde (SUS). Dados do comitê mostram que há unidades da capital que chegam a realizar mais de 90% de cesáreas.

"Essas mulheres que estão saindo da região metropolitana e vêm para a atenção secundária em Fortaleza acabam reproduzindo esse modelo de 80 a 90% de cesáreas. Um cuidado que apontamos para os gestores é o de tentar fixar mais essas mulheres, promovendo um pré-natal de qualidade e dando informações para que elas se sintam mais acolhidas, seguras e confortáveis."

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