Manifestantes contrários ao impeachment acampam no centro de Belo Horizonte

Leo Rodrigues - Correspondente da Agência Brasil

Manifestantes contrários ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff fizeram uma manifestação hoje (1º), no centro de Belo Horizonte, quando foi comemorado no país o Dia do Trabalhador. Na Praça da  Liberdade, foi montado um acampamento para realizar atividades políticas e culturais ao longo dos próximos dias, a fim de mobilizar a população para resistir contra o processo em curso no Senado Federal.

Segundo a presidenta da (CUT-MG), Beatriz Cerqueira, o acampamento será por tempo indeterminado. "Não temos data para sair. Vamos avaliando pela conjuntura. A ideia é fazer daqui um lugar para debate do momento atual. Vimos anteontem, por exemplo, a justiça mineira tomar a decisão de impedir que as pessoas discutam o impeachment. Vamos nos manter vigilantes e debater todos esses ataques à democracia", explicou referindo-se à decisão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) que, na sexta-feira (29), proibiu a realização de uma assembleia de estudantes da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). 

A concentração do ato começou às 10h, na Praça Afonso Arinos e foi convocada pela Frente Brasil Popular, composta por diversas entidades e movimentos sociais. As lideranças se revezaram no microfone para lembrar a importância do 1º de maio para os trabalhadores. Para Beatriz Cerqueira, o ato resgatou o espírito do movimento sindical: "Nos últimos anos, o 1º de maio foi lembrado com festas e sorteios pelo movimento sindical. Esta não é uma data para festa, é uma data para luta. E este é o 1º de maio mais importante. Nos últimos 15 anos, nunca fomos tão atacados como agora. O cenário que se vislumbra é terrível para os trabalhadores do campo e da cidade, do mercado formal ou informal".

A advogada Cristiane de Castro, de 33 anos, também manifestou preocupação com a possibilidades de retrocessos. "O documento Ponte para o Futuro, onde Michel Temer e o PMDB revelam o que pretendem fazer caso assumam o governo, já sinaliza para a retirada de direitos trabalhistas. Eles pretendem flexibilizar a CLT e já está tramitando um projeto de lei perverso sobre a terceirização, que coloca em risco o que conhecemos hoje como trabalho formal. Precisamos nos mobilizar para garantir a manutenção de tudo que foi conquistado até então", analisou.

História

A greve dos metalúrgicos do ABC paulista foi lembrada pelo deputado estadual Durval Ângelo (PT. "Foi a mobilização em 1º de maio de 1978que  deu um passo fundamental para derrubar a ditadura militar alguns anos depois. Historicamente, esta data sempre esteve vinculada à luta pelas liberdades democráticas. Hoje, vivemos uma situação análoga. Há um risco de retrocesso no Brasil e de perda de direitos", comparou.

A deputada federal Jô Moraes (PCdoB) disse que os trabalhadores precisaram deixar em segundo plano pautas tradicionais presentes em manifestações dos anos anteriores. "Sem dúvida, a marca principal desse primeiro de maio é a defesa da democracia, mais do que os avanços em direitos e salários. Porque se já é difícil para os trabalhadores lutar num ambiente democrático, nós não temos dúvidas de que será muito mais complicado com essa agenda apresentada pelo Michel Temer que nos leva de volta ao passado. Os mais prejudicados serão os trabalhadores", alertou.

Unidade

Integrante do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), Leonardo Péricles considera que a saída é crescer a unidade dos grupos de esquerda. O MLB não integra a Frente Brasil Popular. Movimentos que faziam oposição à gestão da presidente Dilma Rousseff se articularam em um outro grupo: a Frente Povo Sem Medo. Embora críticos das alianças que o PT realizou, defendem que este é um momento de mobilização conjunto e por isso se solidarizam com os atos da Frente Brasil Popular.

Para Leonardo Péricles, está em curso um golpe no país, mas ainda é cedo para falar em oposição a um eventual governo Michel Temer. "A luta é para barrar o golpe. Ainda não está consolidado, mesmo sabendo que a situação no Senado é bem adversa. Mas a mobilização de rua pode ter um papel determinante. Se o impeachment se consolidar, aí sim faremos uma nova avaliação. Mas até lá, a luta é contra o golpe", disse.

Outros atos

Mais cedo, aproximadamente 50 pessoas se reuniram na Praça da Liberdade para manifestarem apoio ao deputado federal Jair Bolsonaro (PSC). Eles gritavam palavras de ordem e exaltavam o deputado e o coronel do Exército Brilhante Ustra, condenado pela justiça de São Paulo por comandar sessões de tortura durante o regime militar, quando chefiava o Doi-Codi na capital paulista. O coronel foi homenageado por Bolsonaro em seu voto a favor da admissibilidade do impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

Ainda assim, o servidor público Júnior Amaral, de 28 anos, entende que o deputado  quer a ditadura de novo no Brasil. "Nem ele e nem nenhum de nós aqui pede a ditadura. Isso é uma forma de a esquerda tentar deturpar a nossa manifestação. O que defendemos são os valores que existiam na época do regime militar, que eram o respeito ao país, a educação moral e cívica nas escolas, a segurança pública. A sociedade era muito mais segura. Naquela época, era cerceada a liberdade dos guerrilheiros. E, sinceramente, onde há guerrilheiros, sou a favor de que as forças policiais atuem para nos garantir a liberdade.

Júnior Amaral conta que a mobilização se deu pela internet e que o objetivo é se contrapor a uma ditadura de opinião aliada à ideologia de esquerda que estaria vigorando no país. "A imprensa dá uma conotação distorcia da verdade. Os livros do Ministério da Educação dão a versão do governo federal. Por exemplo, o problema do movimento gay é que eles buscam privilégios e distorcem a opinião de quem tem opinião diferente. Ninguém aqui é contra homossexual. Mas não concordamos que crianças de seis anos sejam educadas nas escolas a partir de causas homossexuais. Essa é a posição do Bolsonaro, mas por ele ser autêntico e espontâneo, acaba dando abertura para interpretações equivocadas", argumentou.

Houve a preocupação de que pudessem ocorrer conflitos com a marcha da Frente Brasil Popular, que vinha da Praça Afonso Arinos com destino ao mesmo local. A Polícia Militar, porém, conseguiu negociar com as lideranças dos dois movimentos para que houvesse compatibilidade entre os horários de saída e de chagada de cada manifestação. Ainda assim, discussões mais acaloradas ocorreram com críticos do deputado Jair Bolsonaro que passavam pelo local. Os policiais intervieram e prenderam uma pessoa, segundo eles, por desobediência.

Também houve discussão na porta do edifício onde mora o senador Antônio Anastasia (PSDB), no bairro de Lourdes. Anastasia é ex-governador de Minas Gerais e atual relator do processo de impeachment no Senado. Um grupo de 50 manifestantes protestava no local, o que gerou bate-boca com pessoas favoráveis ao afastamento da presidenta Dilma Rousseff que passavam pelo local. O muro do edifício também foi pichado com a expressão "PSDB golpista". Segundo a Polícia Militar, os ânimos se acalmaram e ninguém foi detido. O síndico do edifício registrou ocorrência de dano, mas autor da pichação não foi identificado.

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