Obras do Bispo do Rosário integram programa cultural da Olimpíada

Alana Gandra - Repórter da Agência Brasil

Os turistas que visitarem o Rio de Janeiro para assistir aos jogos da Olimpíada e da Paralimpíada terão a oportunidade de conhecer obras ligadas à criatividade do artista plástico conhecido como Bispo do Rosário, na exposição Das Virgens em Cardumes e da Cor das Auras, que o Museu Bispo do Rosário de Arte Contemporânea inaugura hoje (4). A mostra ficará aberta ao público até o fim de janeiro de 2017 e faz parte do Circuito Cultural Rio, idealizado pela prefeitura carioca, por meio da Secretaria Municipal de Cultura, para a programação cultural dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos.

O primeiro cortejo levará em uma caixa fechada de madeira e acrílico o famoso Manto da Apresentação, confeccionado pelo artista ao longo de toda a vidaRodrigo Lopes/Museu Bispo do Rosário

A diretora do museu, Raquel Fernandes, informou que a cada exposição, a instituição busca trazer curadores convidados para mostrar sempre diversos aspectos sobre a obra de Bispo. No ano passado, por exemplo, o professor de arte Marcelo Campos abordou as origens e o folclore envolvendo o passado do artista plástico brasileiro, internado como esquizofrênico na Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, zona oeste da capital fluminense, onde ficou durante 50 anos, até morrer, em 1989. 

"Desta vez, a gente está pegando, com a curadora Daniela Labra, um viés de Bispo enquanto performer, na maneira como ele circulava e apresentava sua obra aqui, na Colônia Juliano Moreira, vestindo o manto, com seus estandartes, de alguma maneira funcionando como um performer". Raquel disse ainda que para o museu, é muito importante a possibilidade de oferecer múltiplos olhares sobre o artista e vários curadores poderem se aproximar e pensar sobre isso.

Raquel Fernandes destacou a importância de Bispo para o museu, não só pelo seu lado artístico, mas para levar a população a pensar em questões relativas à reforma psiquiátrica, "toda a forma como ele subverte a lógica do manicômio. Por isso, ele é importante para a gente, como é importante manter o museu dentro da antiga Colônia Juliano Moreira, devido a essa subversão que ele conseguiu fazer por meio da arte".

O público poderá assistir, a cada final de mês, ações performáticas que produzirão resíduos que, tal como fazia Bispo, irão se acumulando ao longo da exposição, afirmou a diretora do museu. "É uma exposição em progresso que remete também, de certo modo, à maneira de Bispo funcionar, que era essa coisa colativa".

Diálogo performático

Para a curadora Daniela Labra, o grande diferencial da exposição é fazer a relação da obra do Bispo do Rosário com a performance-arte das artes visuais contemporâneas. A exposição trata dessa questão da performance e de como ela dialoga com a obra de Bispo, não somente do ponto de vista formal, mas da relação da arte com a vida, que é explorada na arte moderna. "A vida do Bispo se sobressai, se singulariza por causa dessa obra, desse legado artístico que ele deixou para a gente. Acho que o grande diferencial é estar tratando dessa proximidade arte e vida na obra do Bispo e fazendo uma relação com a performance-arte", explicou Daniela.

Documentação da obra de Arthur Bispo do Rosário, Museu Bispo do Rosário - Arte Contemporânea, Rio de Janeiro. Rodrigo Lopes/Museu Bispo do Rosário

A exposição reúne 15 artistas convidados, dos quais uma parte fará residência e oficinas na colônia. "Eu estou trabalhando com a ideia de obras de arte performáticas", disse Daniela. "Serão artistas que estarão presentes na exposição com vídeos, com fotografias, mas não farão performances, e outros que terão obras expostas e farão ações ou residências que complementem os trabalhos".

A abertura do evento hoje terá durante todo o dia, a partir das 6h, a apresentação de cinco ações da diretora e performer Eleonora Fabião, do Rio de Janeiro. "São cinco caminhadas em percursos diferentes pela colônia, sendo que três delas acontecem com obras do Bispo do Rosário". O primeiro cortejo levará em uma caixa fechada de madeira e acrílico o famoso Manto da Apresentação, confeccionado pelo artista ao longo de toda a vida. Para assistir a essa primeira caminhada, o museu disponibilizou dependências em seu polo experimental para que pessoas interessadas passem a noite no local. Até o momento, há 34 inscritos para o pernoite, que se somarão à equipe de Eleonora Fabião e à equipe do museu. "Teremos aí, no mínimo, 50 pessoas acompanhando essa caminhada". O último cortejo conduzido pela performer sairá às 18h.

Daniela Labra ressaltou que no momento em que a necessidade de cultura no Brasil é colocada em xeque, essa abertura da exposição significa uma homenagem à obra do Bispo do Rosário, de respeito à memória da Colônia Juliano Moreira, "compreendendo que tudo isso é cultura". "Uma abertura que acontece assim, longa, é para a gente também expurgar esse discurso caído e atrasado que não compreende o patrimônio cultural como algo fundamental para melhora do ser humano". A curadora assegurou que a melhora de uma nação passa pela valorização do seu legado cultural. "É isso que a gente está fazendo nessa abertura".

O público poderá ver também registros fotográficos inéditos do Bispo do Rosário feitos no fim da década de 1950 pelo fotógrafo francês Jean Manzon. Serão exibidos na exposição oito estandartes que foram vistos juntos uma única vez há 30 anos, além de peças bordadas nas décadas de 1960 e 1970 pelo próprio Bispo.

Educação cultural

A partir da exposição, será iniciado um projeto paralelo de educação cultural e de cidadania, voltado a crianças de 5 anos a 12 anos de idade, alunos da rede pública municipal de ensino de Jacarepaguá, intitulado Merendeira Cor-de-Rosa: Rumo à Exposição, nome de um dos trabalhos de Bispo do Rosário.

Estandarte Colônia Juliano Moreira, é uma das peças de Bispo do Rosário exibida no museuRodrigo Lopes/Museu Bispo do Rosário de Arte Contemporânea

Já foi encerrado o processo de formação dos professores, bem como a inscrição das escolas. Participarão do projeto 800 estudantes de dez escolas da região. Raquel Fernandes disse que com a abertura da exposição, "a gente começa a ter as expedições com os alunos. Eles fazem o percurso na exposição e no Circuito Cultural Colônia, recém-criado". Serão ao todo 20 expedições.

O nome do projeto foi escolhido para que se possa trabalhar com os alunos o que é a identidade cultural do carioca que não mora na zona sul da cidade. "Como se constitui a identidade cultural da zona oeste. Esse é o trabalho de reconhecer percursos, a história local, além de discutir também a obra de Bispo e trabalhar a questão de gênero", disse a diretora do museu.

O projeto pretende debater com os estudantes a arte dos bordados feitos pelo artista e a cor rosa usada em várias obras. "A gente vai trabalhando esses dois vieses, a apropriação do território, a riqueza da região e da própria arte de Bispo". Raquel esclareceu que o projeto Merendeira Cor-de-Rosa: Rumo à Exposição se estenderá somente até novembro, em função do calendário escolar, para concluir dentro do ano letivo. Ao final do projeto, será elaborado um livro sobre o percurso, ilustrado pelo premiado artista Roger Melo.

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