Comitê que fiscaliza ações da Samarco terá câmara técnica para indígenas

Maiana Diniz - Repórter da Agência Brasil

O ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho, pediu hoje (7) a criação de uma câmara técnica específica para tratar das demandas dos povos indígenas atingidos pelo rompimento da barragem de mineração da Samarco, no final do ano passado. "Vamos institucionalizar a participação daqueles que estão diretamente envolvidos e são vítimas", destacou ele, ressaltando que a inclusão "ajuda a gente a fazer uma avaliação mais justa do que precisamos priorizar no momento", disse.

 

Ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho abre reunião do Comitê Interfederativo, criado para monitorar ações compensatórias aos povos da região atingida pela barragem da Samarco, em Mariana   Elza Fiuza/Agência Brasil

Representantes das etnias Krenak e Tupiniquim vieram a Brasília pedir maior participação na implementação do acordo assinado entre o governo federal, os governos de Minas Gerais e do Espírito Santo, a Samarco, Vale e BHP Billiton, homologado no início de maio. "Não somos contra o acordo, mas queremos ser envolvidos na busca por soluções que nos afetam", disse o cacique Fabiano Tupiniquim Caieras Velha, que vive no município de Aracruz (ES), que teve o turismo prejudicado pela lama de rejeitos.

Hoje foi a primeira participação do novo ministro na reunião do Comitê Interfederativo para Acompanhamento dos Programas de Recuperação da Bacia do Rio Doce, criado para fiscalizar as ações de reparação da Samarco na região atingida pelo rompimento da barragem da mineradora, no município de Mariana-MG. Sarney Filho destacou que, quando assumiu o ministério, o acordo já estava feito, mas segundo ele, ainda pode ser aperfeiçoado.

"O nosso foco principal deve ser as pessoas que foram atingidas, as famílias, aquelas pessoas que perderam parentes e referencias", disse o ministro. Segundo ele, "não cabe ao ministro criar insegurança jurídica, por isso vamos respeitar a homologação." Sarney Filho acredita, porém, que há espaço para correções, como o maior envolvimento das populações afetadas pela tragédia.

"Essa iniciativa dá um pouco de esperança para gente, é uma luz no fim do túnel", avalia Douglas Krenak, líder de uma aldeia de cerca de 400 pessoas, no município de Resplendor-MG, próximo à divisa com o Espírito Santo, em um território cortado pelo Rio Doce. Ele contou que os Krenak não foram ouvidos nenhuma vez durante a elaboração do acordo entre governos e mineradoras, e acrescentou que a relação desse povo com o Rio Doce não está sendo levada em conta na formulação de ações compensatórias.

Douglas explicou que a comunidade está recebendo água potável, insumos para o gado e uma renda para subsistência da mineradora Samarco, mas as ações são consideradas insuficientes frente à importância do Rio Doce para os Krenak.

"O Rio Doce é mais do que água para o nosso povo, vai além de abastecimento de água. É uma entidade sagrada para os Krenak", disse. "Algumas pessoas não entendem. Não é só chegar na nossa comunidade com caminhões-pipa ou distribuir água mineral. Tem pessoas sofrendo, especialmente os mais velhos, que agora não conseguem passar as tradições para frente. Estamos na busca de um caminho para manter a nossa cultura", disse.

Chamado pelos indígenas da região de "watu", que significa "grande rio, grande pai" no idioma nativo, o Rio Doce era usado para rituais como os batizados de crianças e ritos de pesca e caça. "Já estamos há 7 meses sem comer peixe do Rio Doce", disse. "O rio está morto, sem espírito. Os peixes morreram todos, e as capivaras foram embora da nossa terra", contou.

Uma das saídas apontadas por Douglas Krenak para diminuir os impactos da lama de rejeitos de mineração sobre os Krenak é a expansão da Terra Indígena Krenak, que permitiria aos indígenas acessar outros locais sagrados na tentativa de suprir a falta do Rio Doce. "Rever os limites do nosso território é um dos caminhos. Teríamos acesso a outros locais sagrados. A reserva tem cerca 4 mil hectares e passaria para 10 mil hectares. Ainda assim, recuperaríamos uma parte ínfima de tudo que já tivemos no Vale do Rio Doce. O que pedimos é menos de 3% do que era nosso", salientou.

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