Integrante das Mães da Praça de Maio é homenageada em universidade em Salvador

Sayonara Moreno - Correspondente da Agência Brasil

Em sua conferência a estudantes da Uneb, a argentina Nora Cortinãs repetiu várias vezes que "sem justiça social não há paz"Sayonara Moreno/Agência Brasil 

A militante da Associação Mães da Praça de Maio Linha Fundadora, da Argentina, Nora Cortiñas, foi homenageada hoje (13) na Universidade do Estado da Bahia (Uneb) por sua história de luta e militância em defesa dos direitos humanos.

Aos 86 anos, Nora falou com estudantes recém-chegados à Uneb sobre ditadura, política, direitos das mulheres e minorias. A ativista destacou a importância da luta por justiça da qual faz parte desde os anos 1970.

"Eu não entendia nada de política até antes do golpe de Estado na Argentina. Mas, ao me encontrar com as outras mães, foi uma aprendizagem para eu entender melhor a política e entender melhor o meu filho e os jovens que querem se dedicar à política e também à militância. Os jovens militam para mudar o mundo, são militantes da vida e da justiça social", disse ela, que é mãe de Carlos Gustavo Cortiñas, desaparecido em 1977, aos 24 anos, quando foi levado por militares argentinos, que o teriam torturado e matado.

A aparência da senhora pequena e de voz baixa não revela a força das palavras e da história de luta pela qual passou. Após o desaparecimento do filho, em1977, Nora se uniu às Mães da Praça de Maio, em Buenos Aires, para pedir às autoridades punição aos culpados pelos sequestros, torturas e desaparecimentos de milhares de pessoas durante a ditadura militar no país. Atualmente, Nora viaja para vários países pata trocar experiências com mães de desaparecidos.

Em seu discurso, a ativista criticou o governo do presidente Maurício Macri, no poder desde dezembro de 2015. "Nesse governo de direita neoliberal, vivemos um retrocesso social e econômico", disse.

A militante também comentou a crise política brasileira e se disse solidária aos jovens e a toda a população brasileira diante do que ela considera um "golpe de Estado".

"Aqui nos Brasil, nós acompanhamos o processo com Lula, com Dilma e víamos que o país vinha progredindo. Mas não há motivos para tirá-la como fizeram, com um golpe de Estado. De nenhuma maneira. Não aceitamos e repudiamos que tenham tirado uma presidenta constitucional, com um golpe de Estado."

Mulheres

A homenageada disse que feminista por entender a importância da luta das mulheres, não somente daquelas que perderam os filhos para a violência policial, mas das que são vítimas do machismo e da violência.

Sobre as mães que perderam filhos, sobretudo as negras, um dos participantes do evento, o professor do Departamento de Ciências da Vida da Uneb Anderson Carvalho, lembrou o caso das mães do Cabula, na capital baiana, bairro que abriga um dos campi e que foi palco de uma chacina de jovens negros. Para ele, a vinda de Nora ao bairro é oportuna e ressalta a importância na continuidade da luta por justiça social.

"Aqui nós tivemos a chacina do Cabula, que matou uma dezena de jovens e, no ano passado, tivemos campanhas de solidariedade às famílias, e obviamente, o que tem ocorrido neste ano, em relação à perseguição dos negros e LGBT. Nós aqui na universidade queremos abrir esse debate sobre a violência contra as minorias, e como podemos combater isso. A vinda de Nora traz essa inspiração", disse o docente.

Ao encerrar o evento, Nora Cortiñas lembrou os desaparecidos, perseguidos, torturados, violentados do mundo.

A ativista ganhou flores, mas ficou sem a medalha honoris causa que receberia, porque o pedido de reconhecimento da homenagem não foi finalizado por questões burocráticas, segundo a universidade. Nora está na Bahia desde o início da semana e participa da Jornada de Direitos Humanos e Democracia, uma série de eventos e atividades ligadas ao tema, ao lado de movimentos sociais.

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