Coral insere população de rua na agenda cultural dos Jogos Rio 2016

Paulo Virgílio - Repórter da Agência Brasil

Os visitantes do Museu do Amanhã neste sábado (23) foram surpreendidos com a performance, durante meia hora, de cerca de 100 moradores de rua no foyer do espaço cultural, localizado na Praça Mauá, na revitalizada região portuária da cidade. A apresentação foi a primeira no Rio do projeto Uma Só Voz (WithOneVoice), nascido durante os Jogos de Londres, em 2012, e pioneiro na inclusão da população de rua na agenda artística oficial das Olimpíadas.

Concebido pela ONG inglesa Streetwise Opera, o Uma Só Voz realiza apresentações do tipo "pop-up", que surgem de repente em meio às pessoas reunidas em determinado local. O diferencial é que os corais são compostos por pessoas que estão ou já estiveram em situação de rua, e que encontram no projeto uma oportunidade de revelar seu talento musical e de sair da exclusão e da invisibilidade em que vivem.

O repertório da performance foi variado, incluindo músicas brasileiras e estrangeiras, cantadas em inglês pelo grupo, que  começou a ensaiar há pouco mais de dois meses. Para as apresentações no Museu do Amanhã e no teatro da Biblioteca Parque Estadual, onde o coral volta a cantar na tarde deste sábado, alguns integrantes aprenderam técnicas circenses de perna de pau. 

Regente do coral, Ricardo Branco Vasconcellos está no projeto desde 2013, mas já trabalhava com população de rua desde o ano anterior. Após a Olimpíada de Londres, os organizadores do projeto foram até a instituição onde Ricardo desenvolvia um trabalho de formação de corais.

"A intenção não é a de parar no final das Olimpíadas. A proposta é desenvolver a arte como ferramenta de transformação da população em situação de rua. Esta apresentação é um ponto de partida", disse o regente, que atraiu os integrantes para o Uma Só Voz não apenas em instituições de assistência social, mas também percorrendo à noite locais do Rio onde os moradores de rua se concentram, como a Central do Brasil e o Largo da Carioca.

'Essas pessoas sempre foram excluídas e no processo de seleção, não quisemos excluir ninguém. Até quem é surdo participa, cantando com o olhar, com o sorriso. A condição é de que participem com amor, estejam em situação de rua ou em alguma instituição se recuperando da experiência de rua que tiveram", contou Ricardo, ao explicar o critério de escolha  para o coral.

Com um típico chapéu de couro nordestino, o paraibano José Martins da Silva, de 65 anos, há mais de dez vivendo no Rio, admitiu que o cantor, compositor e sanfoneiro Luiz Gonzaga, de quem é fã e chama de amigo, foi sua inspiração para aderir ao Uma só Voz. "Eu me espelhei nele. Luiz Gonzaga foi sempre um defensor do Nordeste", disse, antes de entoar trechos de uma música de Gonzagão.

Martins disse que foi parar na rua por falta de condições de pagar o aluguel de um quarto no Centro. "Não me arrependo de ter morado na rua, não', contou. Acolhido pelas missionárias da congregação fundada por Madre Teresa de Calcutá, voltou a morar em um quarto e depois de ter vencido um câncer trabalha como voluntário na instituição de caridade.

"O projeto é uma maravilha. Está ajudando as pessoas na parte de defensoria e na parte de acolher os viciados, que precisam de um apoio", disse, entusiasmado com o Uma Só Voz. Também participante do coral, Norma Sueli dos Santos Coelho, de 57 anos, foi parar na rua por causa das drogas e hoje, reabilitada, diz que o canto mudou sua vida e a trouxe de volta ao convívio com família.

"Eles não me aceitavam porque eu vacilei muito, tive no mundo das drogas. Agora estou de novo ao lado da minha filha", contou. Emocionada, Norma disse que estava feliz com a experiência de cantar para o público: "Eu estou sentindo que eu sou alguém, que as pessoas estão olhando pra mim. Porque as pessoas não me olhavam".

A segunda performance de hoje, a partir das 16h na Biblioteca Parque Estadual, no centro do Rio, marca a entrega simbólica do projeto para o Japão, país cuja capital, Tóquio, sediará a próxima Olimpíada. A passagem do bastão assinala, segundo Ricardo Vasconcellos,  "o lançamento de uma rede mundial de desenvolvimento da arte para a população de rua".

O Uma Só Voz conta também com a colaboração de 18 artistas, de integrantes de ONGs e de ex-moradores de rua do Japão, Austrália, Reino Unido, Portugal e Estados Unidos. Entre os parceiros do projeto estão o British Council, a Fundação Calouste Gulbenkian, a Prefeitura do Rio e o Movimento Nacional de População de Rua.

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