Atletas brasileiros dizem estar preparados para problemas na Baía de Guanabara

Vinícius Lisboa - Repórter da Agência Brasil

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A poluição na Baía de Guanabara foi alvo de críticas recorrentes ao governo do estado do Rio de Janeiro pelo descumprimento da meta de tratar 80% do esgoto que chega ao mar. Experientes em treinar e competir no cartão-postal carioca, os atletas brasileiros se disseram preparados para enfrentar a situação.

Medalhista olímpica na vela, Isabel Swan, da classe Nacra 17, disse que a avaliação sobre a poluição só poderá ser feita durante a competição. "Acho que, nos jogos, não vamos ter problema, porque é mais fácil manejar a limpeza de um local espefícico [as raias]. É mais fácil controlar isso quando não tem movimento de barco, porque a baía está fechada e você está procurando o lixo", disse.  "Tem que pensar que é possível que aconteça e que está dentro da nossa parte técnica. Se acontecer, estamos preparados para retirar e seguir velejando".

O coordenador técnico da seleção, Torben Grael, disse que o tema foi ostensivamente falado "enquanto ainda dava para fazer alguma coisa". "Agora é inútil falar de lixo", disse. "A nossa arena foi entregue cheia de lixo."

Martine Grael, da categoria 49erFX, disse acreditar que "não é tarde" para despoluir a baía. "Não se perdeu essa chance. Ainda está em tempo de começar uma coisa de longo prazo. Os políticos gostam de fazer coisas a curto prazo e que não funcionam".

A atleta afirmou que os brasileiros já estão acostumados com o problema por velejarem na baía nessas condições há muitos anos. Sua dupla, Kahena Kunze, brincou: "Desde que tenha vento, já temos nossos macetes pra tirar o lixo", afirmou, evitando falar mais sobre o assunto.

Ricardo Wikini, o Bimba, afirma que os pedaços pequenos de plástico são os principais inimigos do velejador, que pode ainda ser prejudicado sem que o lixo o atinja. "Tem uns que você demora para perceber que pegou. Você estava andando a 40 quilômetros por hora e de repente começa a andar a 35. Aí, você começa a olhar para a sua quilha pra ver se tem lixo ou não tem, e a pior coisa que é não ter, porque você para, vê que não tem e já perdeu tempo", disse. Bimba compete na categoria RS:X masculina. "Todo mundo vai passar a regata inteira dando aquela olhadinha na quilha e pensando, será que eu fui ultrapassado por que estou com um canudinho preso?"

Mesmo assim, o velejador acredita que a Olimpíada, para a vela, será a mais bonita da história. "O que ficará registrado são imagens que nunca tiveram em nenhum lugar do mundo, em nenhum campeonato mundial ou olimpíada".

Rotina

A Baía de Guanabara será o palco da vela na Olímpíada do Rio de Janeiro, mas suas águas já são navegadas por bandeiras de atletas estrangeiros desde os últimos jogos. Enquanto em muitos esportes os treinos e estratégias são repetidos em ginásios fechados, na vela os brasileiros treinaram com boa parte dos seus adversários nas raias que começarão a receber as provas em 8 de agosto.

O coordenador técnico da seleção, Torben Grael, disse que é comum que no esporte os treinos sejam feitos em conjunto e, quanto mais estrangeiros de alto nível presentes no cotidiano, melhor é a preparação. "Têm alguns específicos de velocidade em que você faz um acordo com alguém ou, às vezes, com mais de um que são seus parceiros de treinamento. E têm as competições de treino que quanto mais [atletas] têm, melhor".

Famosa entre os velejadores por ser imprevisível e "não ter um dia igual ao outro", a Baía de Guanabara recebeu com muita frequência atletas da Grã-Bretanha, da Nova Zelândia e da Holanda. Para Grael, a vantagem de "jogar em casa" acabou ficando menor. "No caso da Baía de Guanabara, não sei se é uma vantagem tão grande, porque os principais estão aqui treinando e fazendo adaptação. Acho que descobriram bastante coisa".

Da categoria RS:X, Ricardo Wikini, o Bimba, concorda que os principais adversários já passaram a conhecer a baía. Os principais que vieram brigar por medalha com certeza. O velejador conta que seus principais parceiros de treino são os espanhóis, os mexicanos e o português João Rodrigues, que considera seu melhor amigo. "É importante testar a velocidade do adversário e ver como está andando. Sozinho, é impossível treinar".

Mesmo com essa parceria, treinar sozinho é uma necessidade que acaba sendo negociada entre os atletas, já que a baía é uma só. Ele lembrou um treino recente em que viveu essa situação: "Na última hora, o inglês me mandou uma mensagem falando que quer treinar sozinho, e eu respeitei 100%. Não é nada pessoal. O cara é meu adversário e quer testar alguma coisa que não quer que eu veja, e eu entendi perfeitamente. No dia seguinte, treinamos juntos de novo".

Isabel Swan, da classe Nacra 17, compara os treinos a jogos amistosos. "É bom pra conhecer o seu adversário, porque é um treino de nível alto", conta ela, que fez amizade com os estrangeiros, mas com uma ceta distância. "Se não, a competição continua em terra. A gente tem amizade e tudo, mas com um certo limite, porque todos têm o mesmo objetivo".

Já Martine Grael, dupla de Kahena Kunze na categoria 49erFX, já pensa em como vai ser quando os estrangeiros forem embora. "Pra gente, virou até rotina. Vai ser difícil é quando eles saírem".

Despoluição

No último dia 20, o secretário do Ambiente do estado do Rio de Janeiro, André Correa, disse que não é possível deixar a Baía de Guanabara em condições adequadas em menos de 25 anos. Correa afirmou que a meta de "despoluir 80% da baía até a Olimpíada" era "muito ousada e mal colocada". Para impedir que o lixo flutuante atrapalhe os competidores, foram instaladas 17 ecobarreiras e 13 ecobarcos.

Ecobarreira instalada no Rio Meriti, ao lado da Rodovia Washington Luiz (BR-040), em Duque de Caxias na Baixada Fluminense, para evitar que o lixo flutuante chegue à Baía de Guanabara Tomaz Silva/Agência Brasil

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