Marido-técnico fez Poliana Okimoto migrar da piscina para o mar

Edgard Matsuki - Enviado Especial do Portal EBC

A paulista Poliana Okimoto ganhou medalha de bronze na maratona aquática, em CopacabanaDanilo Borges/Brasil 2016

Pouco conhecida no Brasil e relativamente recente no programa olímpico (é disputada desde os Jogos de Pequim, em 2008), a maratona aquática tem o nome de Poliana Okimoto como referência. Pioneira na modalidade (disputada em águas abertas) no país, Poliana experimentou um período de adaptação, sofreu derrotas, passou por privações e conquistou, no que parece ser uma história com final feliz, a redenção em uma medalha olímpica.
Poliana, que já nadava desde os 13 anos de idade, só foi conhecer a maratona aquática aos 21 anos.

Ela, que já havia até participado de um Mundial nos 800m e nadava apenas em piscinas, entrou no mar para disputar uma prova por causa de uma imposição em casa. Num certo domingo de 2004, Ricardo Cintra, marido e técnico, estava assistindo a prova da Travessia dos Fortes (disputada na Praia de Copacabana) pela televisão quando disse para Poliana: "em 2005, você vai fazer essa prova".

No momento em que ele falou isso, a nadadora não levou muito a sério. O marido-técnico realmente via um potencial nela. "Ela achou que eu estava brincando. Mas eu realmente fiz a inscrição dela em 2005. Ela ficou nervosa, mas quando viu as adversárias, ela, que é muito competitiva, nadou e bateu recorde da prova [que tinha 3.800m]", conta Cintra.

O desempenho de Poliana atestou o que Cintra já desconfiava: "Nos treinamentos, eu via que ela tinha uma condição aeróbica muito boa. Sabia que as provas de piscina (800m e 1.500m) eram curtas para ela. Aí eu falei: este é o esporte ideal para você. E foi como tudo começou", conta Cintra.

Na época, a maratona aquática foi confirmada no programa olímpico. Era o empurrão que faltava. Com treinos constantes e precisando se adaptar para nadar em águas abertas, Poliana já conseguiu em seu primeiro mundial ganhar duas medalhas de prata. Enquanto se acostumava a nadar entre animais, com temperaturas e humores distintos do mar, Poliana foi colecionando recordes e títulos. Faltava só um bom resultado nas Olimpíadas para marcar o nome de Poliana e da modalidade no país.

Chance na China

A primeira chance foi em Pequim. Poliana nadou bem e acabou em sétimo lugar. Mas ela sabia que poderia ter feito mais. A prova foi o título mundial em 2009. Na Copa do Mundo, ela venceu 11 das 13 provas da competição. Em 2012, Poliana teve a segunda chance, mas sofreu uma crise de hipotermia durante a competição.

"Londres foi uma fatalidade. Maratona aquática é isso. A gente brinca que piscina é matemática. Sempre aquela temperatura, ir e voltar, ir e voltar. Não tem contato físico. Na maratona aquática tudo pode acontecer. Tem uma série de fatores. Em Londres, a água era muito fria e ela teve que abandonar", relembra Cintra.

Já com 29 anos, Poliana sabia que as chances de uma medalha estavam acabando. Por isso, se dedicou ainda mais. Além dos treinos pesados, ela e o marido seguiram uma rotina regrada de vida. Alimentação, só sem glúten. "Sem gosto", como diz Poliana. Ela tinha que ir para a cama cedo e acordar cedo. Diversão não tinha muita. "Nossa rotina era treinar, comer e dormir. É uma rotina bem cansativa. Teve uma fase que eu comecei a ter pena dela. E técnico não pode ter pena. Mas marido pode", diz Cintra.

O dia de mensurar se o esforço daria resultado estava marcado. Em 15 de agosto de 2016, Poliana fez uma prova constante na Praia de Copacabana (mesmo lugar da estreia), mas chegou em quarto lugar. A medalha estava perdida, só que por apenas alguns minutos.

Poliana conta tudo o que sentiu naqueles instantes: "Eu já estava feliz porque tinha feito uma prova muito boa. Na hora que eu cheguei, estava exausta. Foi na superação, foi na coragem a minha prova. É claro que o quarto lugar é a pior posição que tem, é a mais ingrata. Senti que tinha faltado um pouquinho. Eu dei o meu máximo e a preparação foi a máxima para cá. Eu não tinha mais o que fazer e eu não esperava ganhar a terceira posição. Estava tranquila, mas eu não estava emocionada".

Quando chegou a notícia de que a francesa Aurélie Muller (que havia cruzado a linha de chegada em segundo) foi desclassificada, Poliana não aguentou: "Depois que me disseram que tinha ganho o terceiro lugar, não sei de onde saiu tanta lágrima. Eu já tinha deixado toda a água do meu corpo no mar. Saía tanta água do meu olho que não sabia o que dizer". O bronze havia chegado.

Para o futuro, dois planos

Ainda aproveitando o gosto da conquista, Poliana tem um plano em curto prazo: aproveitar o gosto de coisas que estava proibida de comer: "Vou comer bem, vou comer doce. Tenho problema com glúten, intolerância. E eu amo comer massa, bolo, pão. Eu tinha que comer tudo sem glúten. E as coisas sem glúten não têm gosto. É ruim e eu tinha que comer. Agora, eu vou sair um pouco da dieta. Desculpa nutri [nutricionista]".

Depois de comer, dormir e descansar. Poliana e o marido esperam fazer mais pelo esporte em que são pioneiros. "A maratona aquática ainda depende muito das provas de fundo [maiores distâncias] de piscina. A gente não tem nenhum projeto específico de maratona aquática no Brasil. Eu queria que o COB (Comitê Olímpico Brasileiro) ou que o governo nos ajudasse a descobrir novos talentos trazendo um programa específico para a maratona aquática. Nessa parte, eu sei o caminho, ela sabe o caminho e eu gostaria de ajudar a descobrir novas Polianas", afirma o marido-técnico.

E para 2020, há planos? De acordo com Poliana, ainda não. "Deixa eu aproveitar a medalha, por enquanto. A minha vida era nadar, comer e dormir. Não me arrependo de nada do que eu fiz. Mas vou parar um pouco", planeja a nadadora.

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