Projeto discute violência contra a mulher e qualifica moradoras da Maré, no Rio

Vinicius Lisboa - Repórter da Agência Brasil

O desejo de organizar a cozinha da igreja que frequentava foi o que motivou Livia Santos, de 30 anos, a buscar uma qualificação em gastronomia. Moradora do Complexo da Maré, ela foi uma das alunas do projeto Maré de Sabores, que já ofereceu cursos profissionalizantes a 400 mulheres da comunidade. Tímida e dependente do pai naquela época, ela chama de reviravolta o que aconteceu em sua vida depois disso:

"Eu só ficava em casa e, de repente, vi que estava ganhando dinheiro e independente do meu pai. Fiquei feliz demais e mudei", conta Livia, que hoje trabalha com outras mulheres formadas pelo curso em um buffet. "Foi meu primeiro emprego e até hoje estou aqui".

A partir de hoje (28), o projeto ganhou um novo endereço, a Casa das Mulheres da Maré, que foi inaugurada pela Redes de Desenvolvimento da Maré. A organização não governamental atua em diversas frentes na comunidade e vai oferecer cursos de gastronomia básica e avançada no espaço, que fica na Rua da Paz, na comunidade Parque União.

Coordenadora da casa, Shirley Villela estima que 30 vagas devem ser oferecidas no próximo mês de janeiro e explica que o projeto também vai trabalhar em discussões de gênero para fortalecer o enfrentamento da violência contra a mulher.

"A casa nasce com o foco de atender mulheres da Maré, seja no âmbito profissional ou no âmbito geral", diz a coordenadora, que firmou uma parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro para que estudantes dos cursos de Direito, Serviço Social e Psicologia façam parte do projeto dando orientações às mulheres em suas áreas de formação.

Chance de libertação

A possibilidade de obter uma nova renda com a profissionalização pode significar mais independência para mulheres que estão em situação de violência, explica Shirley.

"A dependência financeira muitas vezes perpetua a situação de violência. A mulher se vê sem perspectiva de sair daquela situação e enfrentar uma vida sozinha ou com os filhos que sustenta. A gente acredita que essa oportunidade possa melhorar a qualidade de vida delas".

O curso de gastronomia avançada terá como principal público o conjunto de mulheres que já passou pelo Maré de Sabores. Muitas, como Lívia, se dedicam à profissão e querem se especializar ainda mais.

Josélia Moura, de 44 anos, já teve algumas aulas, mas quer se profissionalizar. A dona de casa planeja somar na renda da família como cozinheira e conta que nem gostava de cozinhar quando teve a ideia.

"Por enquanto, eu só cozinho em casa. O pessoal lá de casa é minha cobaia. Ano que vem, com certeza vou fazer alguma coisa aqui", conta ela, que também considera muito interessante o espaço de discussão sobre violência contra a mulher. "A mensagem é que a mulher, a partir do momento que ouviu um grito, ela não pode baixar a cabeça".

Perfil da mulher da Maré

Segundo o Censo de 2010, 51% dos mais de 130 mil moradores do Complexo da Maré são mulheres e 57% delas se declaram negras (pretas ou pardas).

A maior parte delas não tinha completado o ensino médio no ano da pesquisa, e 63% tinham renda entre um quarto de salário mínimo e um salário mínimo.

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