Protesto contra PEC do Teto no Recife termina com depredações e 40 detidos

Sumaia Villela - Repórter da Agência Brasil

O protesto no Recife contra a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) do Teto dos Gastos Públicos, inciado no fim da tarde de hoje (13), começou pacífico, mas ao longo da manifestação houve destruição e mais de 40 detidos.

A concentração dos manifestantes ocorreu na Praça do Derby de forma organizada. Em ato, neste momento, era formado, em boa parte, por estudantes secundaristas e universitários, embora houvesse a participação de integrantes de movimentos sociais e da Central Sindical e Popular (CSP - Conlutas).

Manifestantes quebram agência na Avenida Conde da Boa VistaSumaia Villela/Agência Brasil

A PEC, enviada ao Congresso Nacional pelo Executivo, estabelece um teto para investimentos públicos pelos próximos 20 anos.  O limite é estabelecido pela inflação do ano anterior. A proposta foi aprovada em segundo turno nesta manhã, no Senado.

Um grupo com rostos envoltos em camisas e máscaras se juntou ao ato ainda na concentração e todos seguiram para a Avenida Conde da Boa Vista. No trajeto, o lixo recolhido pelo caminho foi espalhado em cruzamentos e incendiado, embora depredações ainda não tivessem ocorrido - até a chegada a uma agência do Banco Santander, quando foram lançadas pedras nas vidraças.

Pelo menos cinco agências foram quebradas na avenida: duas do Santander, duas do Itaú e outra do Bradesco. Lixeiras públicos também foram destruídas pelo caminho, ônibus foram pixados e os tapumes de construção das estações do sistema Bus Rapid Transit (BRT)  - obra da Copa do Mundo parada atualmente - foram atacados.

Na frente da Corregedoria Geral da Secretaria de Defesa Social de Pernambuco, três pessoas - dois homens e uma mulher - sacaram armas e apontaram para os manifestantes quando eles se aproximaram do prédio. Esse foi o único ato de repressão visto pela reportagem durante o trajeto na Avenida Conde da Boa Vista.

Manifestação dividida

Os trios elétricos de entidades sindicais e uma boa parte dos manifestantes abandonaram a passeata quando as agências começaram as ser quebradas. Durante a depredação, a reportagem observou grupos de jovens que não participavam da manifestação colocando camisas no rosto e até capacetes de moto para se juntar ao grupo. Houve relatos de furtos de transeuntes.

Mayara Barbosa, 18, vendia pipoca na Rua do Sol quando mascarados levaram seu celular e moedas. Ela abordou manifestantes para reclamar do crime. "Estava vendendo pipoca e colocando o dinheiro em um saquinho. Aí passaram e deram um bote. Como eu vou para casa agora?", questionou. Lojas que ficam no percurso do ato fecharam as portas e pessoas que aguardavam o ônibus se aglomeravam nas esquinas, amedrontados.

Ao cruzar a Rua do Sol, uma viatura da Polícia Militar e veículos das Forças Armadas avançaram contra o ato e dispersaram o grupo. Logo depois o efetivo se retirou. Os militares das Forças Armadas participaram da ação porque 3,5 mil deles estão reforçando o policiamento nos 13 municípios da Região Metropolitana do Recife (RMR) até o dia 19 de dezembro, pedido feito pelo governador Paulo Câmara (PSB) motivado por uma ameaça de greve de policias militares e bombeiros.

Poucas dezenas de manifestantes ainda continuaram até a Praça da Independência - conhecida como Praça do Diário - e encerraram o ato. Outro contingente das Forças Armadas e da PM chegou no local e ficou vigiando o grupo, mas não avançou até eles.

Advogados que compõem o Centro Popular de Direitos Humanos informaram que 48 pessoas foram detidas pelo Exército na dispersão do ato ocorrida na Rua do Sol. Dez são menores de idade. "O comandante falou que eles estão sendo acusados de depredação de patrimônio e arrastão, mas não existe esse tipo [de delito] penal e a conduta de cada um tem que ser individualizada. Eles pegaram as pessoas que estavam correndo, de forma aleatória", disse um dos sete profissionais que atuam no caso, Caio Moura.

Até o fechamento da reportagem a Agência Brasil não conseguiu contato com as polícias Civil e Militar de Pernambuco.

Ocupações

Na concentração, muitos estudantes secundaristas e universitários que ocupam escolas no Recife falaram ao microfone do trio elétrico e comparecem ao ato sem proteção no rosto ou participação nas depredações ocorridas ao longo do trajeto. O tom comum entre os grupos é que as ocupações continuam mesmo com a promulgação da PEC.

Estudante da Escola Nilo Pereira, em Tamarineira, a única instituição municipal ocupada de Pernambuco, Daniel (que não quis dar o sobrenome) diz que a ocupação continua porque também existem outras reivindicações do movimento. "A gente ainda está na luta por causa da Medida Provisória do Ensino Médio e por melhorias internas nas escolas municipais. É preciso fazer melhorias urgentes, porque muitas estão com tetos caindo, inclusive", diz. A exigência é que os reparos comecem ainda com a ocupação mantida.

Uma estudante da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) que pede para não ser identificada disse que a luta só começou. "Nós aprendemos com os quilombolas, os indígenas, as populações tradicionais, que lutam por seus direitos há muito tempo, resistem e reexistem. A estratégia ainda vai ser definida em conjunto com os movimentos de ocupação nacionais, mas não temos previsão de quando vamos encerrar", disse. A instituição tem três prédios ocupados e os demais trancados, além de uma greve de professores, alunos e técnicos.

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