Militantes e trabalhadores se mobilizam para manter ações na Cracolândia

Daniel Mello - Repórter da Agência Brasil

Coletivos e trabalhadores de saúde e assistência social que atuam na região da Cracolândia estão mobilizados para acompanhar as mudanças que serão feitas nas ações desenvolvidas na região da Luz, no centro da capital paulista. No último domingo (11), foi feito um protesto na Avenida Paulista e neste sábado (17) é realizado um festival artístico em frente à Estação Júlio Prestes, próximo ao ponto onde fica a maior concentração de usuários de drogas.

O prefeito eleito, João Dória, pretende encerrar o programa De Braços Abertos (DBA), que promove uma abordagem focada em redução de danos. A ação integra os usuários, de forma flexível, a frentes de trabalho, oferece alojamento em hotéis e remunera os participantes, por dia, pelos serviços prestados.

"A nossa mobilização pretende trazer a discussão para a sociedade civil, de forma que não só os militantes, usuários e trabalhadores estejam envolvidos com essa temática. Por isso, a ideia de fazer um festival pedindo pela continuidade do programa, considerando o que ele significa em avanços no campo dos direitos humanos", disse a psicóloga Laura Shdaior, que atua na tenda que presta atendimento em saúde aos usuários de drogas na região.

Violência policial

Uma das maiores preocupações dos grupos é de que haja o recrudescimento da violência da Polícia Militar e da Guarda Civil Metropolitana contra os usuários. A antropóloga Roberta Marcondes - que faz parte dos coletivos Desentorpecendo a Razão, Antiproibicionista e Sem Ternos, que reúne trabalhadores da Cracolândia - diz temer que a nova administração municipal aja com violência, traumatizando ainda mais essas pessoas.

A equipe do prefeito ainda não definiu como será exatamente o atendimento aos usuários de drogas na região. Porém, a assessoria de Dória informou à Agência Brasil que será elaborado um programa "mais eficaz", baseado no trabalho feito pelo governo estadual. O Programa Recomeço, que também funciona na Cracolândia, busca dependentes nas ruas a fim de levá-los para tratamento, com afastamento e abstinência, e reabilitá-los para o trabalho. Em casos extremos, são usadas internações involuntárias e compulsórias.

Redução de danos

O programa De Braços Abertos atua de modo a melhorar as condições de vida dos usuários, reduzindo os prejuízos causados às pessoas, permitindo, por exemplo, o acesso aos serviços de saúde, sem necessariamente abandonar o consumo de drogas. Segundo a prefeitura, 88% os beneficiados pela iniciativa reduziram o consumo de crack. Em comparação com a média registrada em janeiro de 2014, de uso de 42 pedras de crack por semana, as pessoas atendidas pelo programa passaram a usar em média 17 pedras a cada sete dias.

"Os países da Europa já estão usando a redução de danos há muito mais tempo, não porque eles são de esquerda ou avançados, mas porque pragmaticamente a redução de danos é muito mais eficiente", disse Roberta. Para ela, a ação da prefeitura ainda tem muitos pontos a serem aprimorados, mas vai na direção correta. "O De Braços Abertos não é a coisa mais maravilhosa do mundo, mas acho que ele traz avanços na reflexão sobre o cuidado", acrescenta.

Ao melhorar as condições de vida dos dependentes, o programa ataca, segundo Roberta, as causas do vício. "É óbvio que quando as pessoas têm uma casa para dormir, elas vão usar menos [crack]. Elas não vão precisar ficar cinco dias acordadas porque não podem pagar um hotel", afirma a antropóloga, que desenvolve atualmente uma pesquisa de mestrado na Cracolândia.

A remuneração paga diretamente aos beneficiados do DBA é um dos pontos que a nova gestão pretende acabar. A equipe de Dória quer fazer, entretanto, uma transição gradual para a nova iniciativa que será elaborada. A previsão é de que o processo seja concluído até o fim de 2017.

Atualmente, o DBA atende a 467 pessoas. De acordo com a prefeitura, desse total, 84,66% estão em tratamento de saúde e 72,75% estão trabalhando. Os dados fornecidos pela administração municipal mostram ainda que 52,52% dos beneficiários retomaram o contato com a família e 84,17%, que estavam sem nenhum tipo de documentação agora estão devidamente identificados.

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