Operação policial na Cracolândia deixa marcas; usuários acusam truculência

Daniel Mello

Da Agência Brasil

  • FELIPE RAU/ESTADÃO CONTEÚDO

    18.jan.2017 - Imagem aérea da cracolândia, em São Paulo, no dia seguinte ao enfrentamento entre PMs e dependentes químicos

    18.jan.2017 - Imagem aérea da cracolândia, em São Paulo, no dia seguinte ao enfrentamento entre PMs e dependentes químicos

As marcas da operação policial realizada na noite de ontem (17) na Cracolândia, na Luz, região central da capital paulista, ainda eram visíveis nesta quarta-feira (18). Pelo chão, havia restos das bombas de gás usadas no confronto entre policiais militares e usuários de drogas que vivem na região, e algumas pessoas tinham no corpo hematomas e cortes.

Na noite de terça-feira, usuários de crack se concentraram na Alameda Dino Bueno e na Rua Helvétia. Por volta das 20h, a Polícia Militar bloqueou os acessos à área com homens armados com escopetas e começou a dispersar o grupo.

Segundo a Secretaria de Estado da Segurança Pública de São Paulo, tudo começou após policiais militares intervirem em uma briga entre frequentadores da região e pessoas que participavam de um culto religioso. "No local, eles [policiais] foram hostilizados com pedras, paus e garrafas por um grupo de pessoas que também depredou uma base da PM e uma viatura da GCM [Guarda Civil Metropolitana], além de danificarem lojas e um coletivo", informou o órgão em comunicado.

Durante a ação, oito pessoas foram presas e encaminhadas ao 2º Distrito Policial, do Bom Retiro, sob a acusação de furto qualificado. De acordo com a secretaria, um policial ficou ferido ao ser atingido no rosto por um coquetel molotov.

Em nota, a prefeitura de São Paulo disse que não teve nenhuma relação com a ação de ontem na Cracolândia e que todos os serviços de atendimento aos usuários e população de rua funcionam normalmente.

Truculência

A versão da PM é contestada pelo ativista do coletivo A Craco Resiste, Raphael Escobar. Segundo ele, que passou pelo local antes do incidente, não houve problemas entre os participantes do culto e os usuários de drogas. "Eles [usuários] gostam da igreja, porque eles ajudam, dão comida", ressaltou.

Escobar atribui o início da confusão a provocações dos policiais contra os frequentares do "fluxo"- aglomeração de pessoas que fumam crack. "A polícia faz isso, eles atiçam: batem, dão lanternada [batem com a lanterna] na cara", criticou.

Segundo o ativista, integrantes do coletivo socorreram um rapaz debilitado que ficou ferido durante a ação. "Um rapaz muito ferido, ele tinha uma sonda. Levaram ele para o médico. Ele já teve alta e a gente conseguiu levar para um albergue", contou.

Escobar disse ainda que o garçom de um bar da região foi preso de forma arbitrária, acusado de ter participado de saques a lojas. "Quando a gente chegou no DP, eles estavam afirmando que só tinha moradores de rua ali. Mentira, porque o garoto [garçom] eu conheço do bar, vejo sempre quando vou almoçar", relatou.

O usuário Juliano (nome fictício) reclamou da truculência da ação. "Eu tirei a minha mulher e meu cachorro para não ser oprimido. Tomei uma borrachada do nada, só porque eu vim pegar o meu cachorro. Pensam que somos maus elementos, ladrão, assassino. Nós não somos isso."

Desarticulação

Para o professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Dartiu Xavier, esse tipo de ação policial compromete o atendimento aos usuários de drogas. "Você estabelece uma relação com esse usuário de drogas na rua no sentido de melhorar a vida dele. Na hora em que você entra com uma ação agressiva, você perde toda a confiança dele. Ele entende todo mundo como Estado, seja quem presta assistência, seja quem agride", disse o psiquiatra à Agência Brasil. Xavier é coordenador do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da Unifesp.

Além de trazer problemas para o atendimento, o professor afirma que as operações policiais são ineficazes contra o tráfico de drogas. "Os traficantes não são presos. Eles não estão ali. Quem está ali preso como se fosse traficante é usuário."

Xavier defende a abordagem de redução de danos e diz que as iniciativas com enfoque em diminuir os problemas causados pelo uso e abuso de drogas são o futuro, em contraposição às políticas que tentam extinguir a circulação e uso das substâncias. "A gente tem 50 anos de proibicionismo no mundo e não tem nenhum efeito positivo", avalia.

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