Família de homem baleado por policial em Pernambuco denuncia ameaças

Sumaia Villela - Correspondente da Agência Brasil

A família de Edvaldo Alves da Silva, baleado por um policial durante protesto no interior de Pernambuco, denunciou estar sofrendo ameaças. As denúncias foram apresentadas durante reunião da Comissão de Cidadania, Direitos Humanos e Participação Popular da Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) que debateu o caso.

O jovem foi baleado por um policial militar durante manifestação realizada na última sexta-feira (22) em Itambé, interior de Pernambuco. O protesto era contra a falta de segurança e violência na cidade. Edvaldo foi atingido à queima-roupa e está em coma, internado na UTI do Hospital Miguel Arraes. O caso ganhou repercussão com um vídeo, divulgado nas redes sociais, que mostra o momento em que ele leva o tiro, cai no chão, é arrastado e agredido pelos agentes e jogado na carroceria da viatura. 

Visivelmente abatida e chorando, a mãe do rapaz compareceu à reunião, mas não concedeu entrevistas.

O irmão de Edvaldo, José Roberto da Silva Santos, que esteve na reunião, disse que, depois da divulgação do caso, testemunhas estão sendo ameaçadas. Ele relatou que na segunda-feira foi abordado por dois homens enquanto acompanhava um grupo de moradores à Fundação de Hematologia e Hemoterapia de Pernambuco (Hemope), no Recife, para doação de sangue a Edvaldo. "Chegaram dois rapazes dizendo que eram da Corregedoria e pediram informação. Queriam saber da jovem que estava no vídeo [uma das testemunhas], perguntou o que aconteceu. As pessoas que estavam no protesto estão sendo ameaçadas", disse José Roberto.

A Secretaria de Defesa Social informou, por e-mail, que a Corregedoria da Polícia Militar investiga a conduta dos policiais, mas não fez qualquer contato com a família de Edvaldo Alves. 

Segundo o advogado da família, Ronaldo Jordão, que também esteve na reunião, uma empresária que testemunhou o momento em que Edvaldo foi baleado tem sido intimidada por mensagens em uma rede social. Uma das frases enviadas à empresária, conforme o advogado, é: "Você é a tal [nome suprimido para proteção da testemunha] que vive a criticar a polícia de Itambé?".

A família pede que os policiais autores do tiro sejam presos e também que os PMs lotados em Itambé - que, segundo a família, seriam os autores das ameaças - sejam substituídos.

A Secretaria de Defesa Social informou, por meio da assessoria de imprensa, que a Polícia Civil está apurando as denúncias de ameaça, "até agora sem autoria definida", e que solicitou inclusão do irmão que denunciou sofrer ameaças no programa de proteção a testemunhas. A pasta já tinha informado na segunda-feira que os militares envolvidos no caso foram afastados para serviços administrativos.

Falhas no atendimento

Durante a audiência, a família também disse que houve falha no atendimento à vítima. Depois de atirar em Edvaldo, os policiais o arrastaram, agrediram o jovem e o levantaram pela bermuda, jogando na carroceria de uma caminhonete. No local, porém, havia uma viatura do Corpo de Bombeiros por causa da manifestação, segundo testemunhas. "O socorro poderia ser feito de forma mais apropriada", disse o advogado Ronaldo Jordão. 

Segundo José Roberto, irmão do jovem baleado, outro problema foi o registro do Boletim de Ocorrência. "Quando eu cheguei no hospital disseram que atiraram no Pretinho [apelido do irmão]. Ele tinha sido encaminhado ao Miguel Arraes pelo Samu. Aí fui para a delegacia. Falei o que aconteceu e o policial que estava de plantão disse que não podia [registrar o BO]. Aí peguei os documentos do meu irmão todos melados de sangue e fui pra casa", contou. A justificativa dada pelo agente teria sido de que o irmão não estava no local quando o disparo foi feito, então o boletim não poderia ser registrado.

O advogado disse que o Hospital Miguel Arraes, do governo estadual, não passou dados solicitados. "Estive no domingo lá para colher informações que poderiam embasar o caso, tipo o instrumento que atingiu Edvaldo; que parte do corpo foi atingido, a gravidade, e nada disso foi repassado", disse. A família também diz que não teve nenhum boletim médico por escrito; só recebeu informações informalmente, em conversas com profissionais de saúde.

Em nota, o hospital informou que o paciente continua internado na UTI, apresentando constante melhora, mas ainda está em coma e respira com a ajuda de aparelhos. Um novo boletim de saúde será divulgado amanhã (23). Sobre a declaração do advogado, a instituição informou que  "a consulta ao prontuário médico é restrita aos profissionais que prestam assistência e ao próprio paciente" e que "os familiares acompanham diariamente sua situação clínica durante as visitas, sendo atendidos diretamente pela equipe médica do Hospital Miguel Arraes".

O chefe da Polícia Civil, Joselito Kehrle, afirmou à imprensa que "as imagens falam por si só". "O que houve foi um disparo com elastômero [material de balas de borracha], que atingiu a virilha e transpassou até as nádegas". A corporação afirma ainda que desconhece que tenha havido tentativa, por parte de funcionários da delegacia, de impedir o depoimento da família. "Ao contrário, a polícia tem todo o interesse em esclarecer os fatos, já tendo tomado os depoimentos dos policiais militares envolvidos, testemunhas, além da realização de diligências e perícias criminais", diz, em nota. 

Procurada, a assessoria de comunicação do Corpo de Bombeiros não se manifestou até o momento.

Comissão

Durante a reunião da comissão, o presidente do colegiado, deputado estadual Edilson Silva (PSOL), propôs a realização de reuniões da comissão com instituições que poderiam cobrar medidas de forma mais rápida para resolver o caso. Seriam agendadas visitas dos parlamentares ao Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), Procuradoria-Geral do Estado (PGE) e ao comando-geral da Polícia Militar.

Os membros da comissão que fazem parte da base governista se opuseram à proposta e derrubaram a iniciativa por três votos a um. Ficou decidido que será enviado um ofício relatando as denúncias feitas pela família e o advogado Ronaldo Jordão. "Tem uma versão posta mas tem gente que está sendo acusada e precisa ter direito de defesa. Entendemos que o limite da nossa comissão é esse, então encaminhamos ofícios e a comissão vai acompanhar", disse o deputado Isaltino Nascimento, líder do governo na Alepe.

Questionado pela Agência Brasil se a recusa das reuniões não diminuiriam a importância do caso, Nascimento negou. "Muito pelo contrário. Parece prudência, para gente não misturar a parte pelo todo, até porque a maioria esmagadora dos profissionais da segurança pública é íntegra, cumpre seu papel. Para não dar uma conotação de que estamos trabalhando contra a corporação ou a Polícia Militar e o governo do estado. Que não é o caso, foi um episódio isolado e vai ser apurado",

O presidente Edilson Silva lamentou o resultado: "Nós hoje aqui procuramos estabelecer que a Comissão de Cidadania e Diretos Humanos iria reunir presencialmente com o comando da PM, com o procurador de Justiça, o Tribunal de Justiça, mas estranhamente a bancada do governo, que tem maioria neste colegiado, acabou votando pela não reunião. Vamos encaminhar da melhor forma possível, mas acho que foi uma infelicidade do governo evitar que a comissão reúna com essas instituições, pois acho que uma situação como essa precisa ser tratada como excepcionalidade".

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