Suspeitos de tráfico de pessoas são acusados de explorar adolescentes paraguaias

Flávia Villela - Repórter da Agência Brasil

A Polícia Civil do Rio de Janeiro prendeu hoje (20) quatro suspeitos de manter em cárcere privado e explorar sexualmente duas adolescentes do Paraguai. As vítimas já estão no país de origem, apesar de terem manifestado à polícia o desejo de permanecer no Brasil. Além das quatro prisões temporárias, foram cumpridos três mandados de busca e apreensão no município de Belford Roxo, Baixada Fluminense.

O representante legal das meninas no Brasil, Rodrigo Moreira Araújo, brasileiro, e a esposa, Mercedes Lopez, que é paraguaia, trouxeram as meninas para o Brasil como suas afilhadas, tendo a primeira delas chegado ao Brasil há cerca de dois anos. A operação, denominada Coiote, teve o apoio do Judiciário e do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro.

As delegadas Tatiana Queiroz (à esquerda) e Juliana Emerique durante coletiva sobre a prisão de suspeitos de tráfico de pessoasTomaz Silva/Agência Brasil

As delegadas titulares da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher de Belford Roxo, Tatiana Queiroz, e da Delegacia da Criança e Adolescente Vítima, Juliana Emerique, coordenaram as investigações, iniciadas em março. A primeira vítima, de 16 anos, que fez a denúncia que originou a operação, contou ter ficado em cárcere privado por dois anos. Quando as investigações já haviam começado, uma segunda vítima, de 15 anos, foi trazida para viver nas mesmas condições. Após três meses em cárcere privado, ela também fugiu e fez a denúncia em junho.

De acordo com a delegada Juliana, as vítimas moravam na residência do casal, trabalhavam como empregadas domésticas e sofriam abusos sexuais do marido e de outros dois suspeitos, Denyel Camilo Araújo, irmão de Rodrigo, e Éden da Silva Carvalho, vizinho do casal, que pagavam para estuprar as meninas. A primeira vítima já havia engravidado de Denyel e feito um aborto. De acordo com as delegadas, elas vinham ao Brasil em busca de uma vida melhor e foram enganadas.

A delegada Tatiana Queiroz contou que a primeira vítima compareceu à delegacia em março, acompanhada de Rodrigo para fazer uma denúncia de estupro. A delegada suspeita que a denúncia foi feita com consentimento do próprio Rodrigo, pois, apesar de ser o agressor, ele queria o registro de ocorrência de estupro para que a menina fizesse um aborto legal, caso estivesse grávida novamente.

"Ela depois conseguiu fugir e compareceu à delegacia no dia seguinte com uma vizinha, contando outra versão totalmente diferente [da do dia anterior]", explicou a delegada Tatiana. "Ela estava extremamente fragilizada. Estou acostumada a lidar com casos de estupro de vulnerável, três a quatro por dia, mas fiquei muito sensibilizada com essa vítima", contou ela.

De acordo com a delegada Juliana Emerique, a paraguaia Mercedes, responsável com o marido pela vinda das adolescentes, veio para o Brasil há 15 anos em busca de uma vida melhor, trabalhando na época para uma família na própria cidade onde mora.

Rodrigo já foi preso com base na Lei Maria da Penha, por ter agredido a esposa Mercedes. Eles têm dois filhos menores de idade. Mercedes ainda mantinha uma creche informal em casa para crianças da comunidade onde morava, em Parque Esperança.

Ainda segundo a delegada Tatiana, as vítimas não queriam retornar ao Paraguai, pois relataram que moravam em situação de miséria. A segunda vítima dizia que preferia até mesmo continuar a ser explorada. "Ela chorava dizendo que não queria voltar para o Paraguai, ou seja, preferia viver sendo abusada e explorada do que voltar para a miséria". Impedidas de contatar a família, elas não recebiam pelos trabalhos, mas eram informadas pelo casal de que uma ajuda de custo era enviada aos parentes, sem a certeza de que isso ocorria.

"Estamos abrindo uma caixa de pandora, esta é apenas a primeira fase. Agora, vamos ver os indícios dessa natureza internacional, para saber como essas adolescentes entram no Brasil, quais são as rotas, e se há efetivo recrutamento. A Polícia Federal será devidamente comunicada por ser crimes da sua atribuição de atuação" completou Juliana.

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