Comércio sustentável de marfim é impossível, dizem pesquisadores

São Paulo - Suspender a proibição do comércio internacional de marfim não vai resolver o problema da matança de elefantes, de acordo com uma análise feita por cientistas britânicos e publicado nesta quinta-feira, 15, na revista Current Biology.

Para alguns especialistas, a proibição, estabelecida em 1989, deveria ser suspensa para permitir uma regulação rigorosa do tráfico de marfim - já que ele continua dizimando os elefantes de forma clandestina. Mas, segundo os autores do novo artigo, não há maneira sustentável de explorar o marfim.

Os cientistas chegaram a essa conclusão depois de desenvolverem um modelo que associa fatores ambientais, biológicos e econômicos - como a demanda do mercado e o fluxo da cadeia de produção de marfim.

"Nós simplesmente não podemos suspender a proibição do marfim. Fazer isso traria consequências catastróficas para as populações de elefantes em toda a África, até mesmo para aquelas que atualmente são bem protegidas, como os da África do Sul", disse o autor principal da análise, David Lusseau, da Universidade de Aberdeen (Escócia).

"Mas precisamos também admitir que a matança não está acabando e nós necessitamos de mecanismos que permitam antecipar a demanda que é criada cada vez que há uma venda regional de estoques, ou um clamor considerável contra a proibição do comércio", afirmou Lusseau.

A análise liderada por Lusseau e por Phyllis Lee, da Universidade de Stirling (Escócia), surge no momento em que a Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas (Cites) discute a legalidade do comércio de marfim.

No dia 11 de setembro, durante o congresso da União Internacional pela Conservação da Natureza (IUCN), um dos aspectos mais debatidos foi a moção que pede o fechamento de mercados domésticos do marfim, já que mesmo com a proibição do comércio internacional a matança de elefantes continua ocorrendo.

De acordo com um censo divulgado no final de agosto sobre o número de animais que vivem na savana africana, a espécie sofreu uma redução de 30% entre 2007 e 2014 por causa da caça.

Alguns países, como Japão, Namíbia e África do Sul apresentaram mais de uma dúzia de emendas que enfraqueciam os termos da moção, mas a maioria do congresso votou por ela ser aceita na íntegra. O texto encoraja governos a encerrarem seus comércios domésticos, vistos como um como situações que criam oportunidades para a "lavagem" do marfim ilegal, que acaba, assim, chegando ao mercado internacional.

A expectativa no congresso é que a moção deve servir como pressão na próxima reunião da Cites, que ocorre em Johannesburgo no final do mês, para que lá se adote uma decisão com poder de lei.

Mas, segundo Phyllis, o Cites está avaliando a possibilidade de legalizar o comércio de marfim - e, por isso, o grupo de cientistas se uniu para produzir um modelo realista que defina quais seriam os limites sustentáveis para a exploração da população de elefantes.

"Antes de pensarmos se deveríamos suspender a proibição do comércio de marfim, precisamos saber quanto marfim uma população de elefantes é capaz de produzir de uma maneira sustentável", disse Phyllis.

Os modelos que existiam até agora não levam em conta a capacidade de produção de marfim de cada elefante individualmente, mas considera apenas a capacidade média de cada um para fornecer marfim. Segundo Phyllis, o problema é que a realidade não funciona assim.

"Na verdade, alguns elefantes fornecem volumes muito maiores de marfim do que outros. Os machos produzem bem mais marfim que as fêmeas e a quantidade de marfim também tende a aumentar à medida que o elefante envelhece", explicou a pesquisadora.

Os cálculos feitos pelos cientistas mostram que a margem de sustentabilidade para a exploração de marfim é incrivelmente pequena. A partir de uma população de 1.360 elefantes, usada como referência, só é possível extrair de 100 a 150 quilos de marfim - uma quantidade que fica muito abaixo da demanda atual.

"Com isso, para manter uma população de elefantes saudável, protegida e em crescimento, seria preciso utilizar no máximo um macho por ano. Considerando que um macho grande pode ter de 45 a 55 anos de idade, levaria tempo demais - de duas a três gerações - para repor esses grandes machos perdidos", explicou Lusseau.

De acordo com Phyllis, a produção seria totalmente insustentável. "Assim que você acaba com os grandes machos, é preciso utilizar vários animais menores para conseguir a mesma quantidade de marfim no ano seguinte", afirmou a pesquisadora.

A situação fica ainda pior quando se leva em conta a demanda insaciável por marfim. "Se para ter uma produção sustentável só se pode utilizar um macho mais velho a cada 1.500 elefantes, simplesmente não há como alcançar a demanda atual", disse Lusseau.

Círculo vicioso

Segundo Lusseau, a simples notícia de que o comércio de marfim poderia ser legalizado já aumenta a demanda e pressiona ainda mais as populações de elefantes. "A venda de marfim tem sido promovida como uma fonte de renda que poderia ser usada para a conservação dos elefantes, mas acabou acontecendo o contrário. A matança aumentou. As vendas locais deram aos consumidores a impressão de que o comércio de marfim foi ou será legalizado, aumentando a demanda e a matança", explicou.

A análise surge poucos dias antes da conferência da Cites, que será realizada a partir de 24 de setembro em Johannesburgo, na África do Sul. De acordo com Lusseau, "é vital que a Cites envie uma claro recado aos caçadores, negociantes e consumidores de que o comércio de marfim está fechado. A partir daí, o trabalho pode ser focado em deter o comércio ilegal, reduzir a demanda e proteger os elefantes em seu habitat", declarou.

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